Washington, 27 (AE) - Ao analisar recentemente o fracasso da Europa em parar as guerras na Croácia e na Bósnia no início desta década - prelúdios do atual conflito em torno da autonomia da província sérvia de Kosovo -, o ex-primeiro ministro da Bélgica, Mark Eyskens, constatou, em entrevista ao Washington Post: "A Europa é um gigante econômico, anão político e verme militar."
Posto diante de um conjunto de alternativas pouco atraentes na questão de Kosovo, o governo dos Estados Unidos assumiu uma vez mais o papel que desempenhou com frequência ao longo do século, de preencher o vazio de liderança local na condução da política de segurança da Europa, e levou a Otan, uma aliança criada com propósitos defensivos, a lançar o primeiro ataque de sua história contra uma nação soberana.
As 19 nações membros da aliança atlântica endossaram a ação e 8 delas mobilizaram suas forças aéreas para o bombardeio da Iugoslávia. O objetivo é forçar o presidente do país, Slobodan Milosevic, a aceitar os termos de um acordo negociado recentemente em Paris, com a participação de representantes de seu governo, pelo qual Kosovo reconquistaria a autonomia que já teve no passado.
Alternativamente, o propósito dos aliados é destruir a capacidade militar da Iugoslávia de prosseguir com o massacre dos kosovares.
Um dia de bombardeio foi suficiente para revelar as primeiras fissuras na aliança. Na quinta-feira, o chanceler da Grécia, George Papandreou, cujo país tem fortes simpatias pelos sérvios, pediu uma suspensão do ataque para abrir espaço a uma nova iniciativa diplomática. Em Roma, o primeiro-ministro da Itália, Massimo DAlema, defendeu basicamente a mesma tese. Os conselhos foram solenemente ignorados pelos comandantes militares da Otan. Prevendo e temendo que as divisões não tardariam, os generais americanos que conduzem a operação e dão as cartas haviam obtido do Conselho da Otan (órgão político) autorização para lançar e sustentar uma ofensiva sem limite de tempo.
A erosão do incerto apoio político que existe na Europa para a Operação Força Aliada é apenas um dos perigos que rondam a audaciosa aposta militar que o presidente Bill Clinton fez em Kosovo, depois de esgotar todas as opções para uma solução negociada. O risco maior para o líder americano está em casa e não demorará a manifestar-se, se o ataque aéreo não surtir o efeito desejado num par de semanas e os sérvios revidarem ampliando sua campanha de genocídio contra os kosovares.
Nesse cenário, a tese do imperativo moral de parar a agressão, que Clinton invocou para justificar sua decisão de jogar bombas contra as forças sérvias, poderá transformar-se num argumento incontornável para ele fazer exatamente o que já anunciou que não pretende, ou seja, mobilizar forças terrestres para resolver o assunto.
O temor de que o conflito evolua nessa direção levou dois senadores americanos, o democrata Joseph Lieberman, de Connecticut, e o republicano Mitch McConnell, do Kentucky, a propor na semana passada a aprovação imediata de uma verba especial de US$ 25 milhões para armar e treinar as forças separatistas de Kosovo, a fim de que elas possam cuidar da própria defesa. A idéia, que consiste basicamente em kosovarizar o conflito antes que ele atole os EUA num novo Vietnã, foi imediatamente repudiada pela administração.
"Essa proposta vai contra o que estamos tentando fazer no momento, que é desmilitarizar e remover as armas", disse o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart.
O senador Jesse Helms, republicano da Carolina do Norte que preside a Comissão de Relações Exteriores e discorda de quase tudo que Clinton faz em política externa, também apresentou seu plano para resolver o problema de Kosovo. Ele quer que o Congresso aprove US$ 100 milhões para financiar uma operação de derrubada de Milosevic e de seu governo e instalar uma alternativa democrática em Belgrado.
"Em vez de esperar tolamente pela boa vontade (do líder sérvio) e insistir numa estratégia que leva a bombardeios da Otan e à mobilização de milhares de soldados americanos para operações de manutenção da paz, creio que o caminho mais sábio é examinar a causa da instabilidade na região, ou seja, o regime sanguinário de Milosevic", disse o senador. A Casa Branca, que nesse caso provavelmente não discorda de Helms, não comentou a iniciativa.
O inicio do recesso parlamentar da Páscoa (hoje) deu dez dias de sossego para Clinton no Capitólio.

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