Ribeirão Preto, 30 (AE) - A soja não-transgênica está sendo comercializada, nos EUA, hoje, com um prêmio sobre a variedade transgênica que vai de 20 a 45 cents por bushel. A informação é do diretor do Laboratório Nacional de Pesquisas com Soja dos Estados Unidos, Steven Sonka, que participou, ontem (29), no final da tarde, juntamente com outros pesquisadores americanos e brasileiros, de um chat pela Internet sobre o futuro da soja. Sonka disse também que a existência de prêmios para a variedade não transgênica não significa que os lucros obtidos por seus produtores sejam expressivamente mais altos.
Segundo ele, ainda não está mensurado que realmente existe um grande mercado específico para a soja não-transgênica. "Nós precisamos deixar que o mercado - formado por produtores, processadores e compradores - e não regulamentações do governo, determine qual o tamanho da participação da soja transgênica no total da safra. Segundo ele, um problema existente é que, depois de introduzida a variedade transgênica em um País, torna-se difícil fazer a separação dos dois tipos de produto. "Mas não é impossível. Nos principais países produtores, a habilidade de se identificar determinados tipos de grãos e separá-los de acordo com as exigências do mercado está aumentando", disse.
Sonka afirmou que, nos EUA, a soja não transgênica é separada dos outros grãos logo após a colheita e os produtos acabam por ter um gasto adicional neste processo de separação e identificação. Ele disse não saber qual é o custo que o produtor paga por este processo, mas afirmou que, no processo de segregação do milho com alto teor de óleo dos mais, o custo de separação no sistema de elevadores é de menos de 10 cents por bushel. Vários produtores de soja do Brasil, presentes na Agrishow, participaram do chat através do estande da BM&F.
O produtor Cyro Penna, por exemplo, questionou se as restrições à soja transgênica em várias partes do globo baseiam-se em questões sanitárias ou protecionistas. O pesquisador Sonka disse que a reação dos consumidores à biotecnologia é bastante complexa, com o protecionismo sendo uma das várias razões - e não a única - que contribui para as restrições aos transgênicos. Segundo ele, a grande maioria dos norte-americanos acha que os transgênicos são seguros. Sonka afirma também que a opinião dos norte-americanos não é formada através do que as companhias de biotecnologia dizem mas porque confiam nas decisões tomadas pela Food and Drug Administration, o órgão norte-americano que libera, para o consumo, drogas e alimentos.
Brasil - O produtor Eliseu Moreira perguntou aos debatedores se a soja transgênica deveria ser introduzida no Brasil. Sonka respondeu que a soja transgênica tem um grande potencial benéfico para a produção agrícola, para o meio-ambiente e para a sociedade e que, como um dos principais países produtores de soja, o Brasil deveria utilizar a nova tecnologia para assegurar sua liderança. Segundo Harold Kauffman
presidente da 6a Conferência Mundial de Pesquisa de Soja, a vantagem para o produtor e para o consumidor da soja transgênica é que os custos são reduzidos consideravelmente. Além disso, a soja transgênica provoca um menor impacto ambiental através do menor uso de pesticidades e fertilizantes.
O professor Harold Kauffman, presidente da Sexta Conferência Mundial de Pesquisa com Soja, afirmou, durante chat sobre o futuro da soja, que o Brasil poderá ter várias consequências negativas, no futuro, se não permitir a produção de variedades transgênicas. As principais, segundo ele, é que os produtores não poderão ter vantagens como a redução nos custos através do uso de variedades transgênicas.
Kauffman disse também que, no longo prazo, muitos outros benefícios serão introduzidos na soja via modificação genética, como melhor qualidade proteica de óleo ou resistência contra doenças e insetos. "Se o Brasil mantiver as portas fechadas para os transgênicos, as companhias não investirão em novos produtos o que irá reduzir a competitividade da soja brasileira no mercado mundial", disse.
Ao ser questionado sobre a previsão da Monsanto de que em 3 anos 30% da safra brasileira será de transgênicos, se o produto for liberado pelo governo, Kauffman disse que a previsão é conservadora. Segundo ele, neste mesmo período, a utilização dos transgênicos atingiu 75% na Argentina e mais de 50% nos EUA.
Liberação - O professor Márcio de Castro Filho, da Escola Superior de Agricultura da USP (Esalq) criticou ontem em sua palestra sobre Biotecnologia, durante a Agrishow, em Ribeirão Preto, a resistência para a implantação dos alimentos geneticamente modificados. "Nunca haverá conhecimento pleno sobre os efeitos que os transgênicos podem causar à espécie humana, assim como nunca soubemos e nem saberemos de fato quais os efeitos colaterais causados pelos remédios vendidos em farmácias", comparou, afirmando que "assumir o risco sobre o consumo do alimento é uma responsabilidade do consumidor, desde que o produto tenha passado pelos devidos exames e estudos em universidades".
Em sua opinião, a resistência à adoção de transgênicos é uma questão mais política do que cultural. "Existem interesses de empresas fabricantes de herbicidas que não pretendem facilitar a entrada dos transgênicos", afirmou. Para o professor, a adoção dos transgênicos não deverá provocar monopólio de empresas que detenham a tecnologia sobre os alimentos geneticamente modificados. "Muito pelo contrário", afirmou. "As universidades estão trabalhando para estudar todo o processo, o que deverá provocar uma corrida de empresas interessadas na comercialização do produto".
O professor descartou qualquer risco de transmissão de gene de soja geneticamente modificada para plantações normais. A dúvida sobre a possibilidade do processo surgiu entre produtores que pretendem plantar, se a comercialização do produto for liberada, a semente modificada em 30% da área produtiva apenas para "testar" a produtividade e custos. Segundo Castro Filho, se isso acontecer ainda nesta safra, a maioria deverá repetir a experiência em doses maiores nos demais anos, devido aos resultados. "A economia que vem sendo testada é de 15%, que acaba sendo importante para o processo de cultivo".

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