EUA estão preocupados com as lições da guerra
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de junho de 1999
Por PAULO SOTERO, Correspondente 
Washington, 13 (AE) - O comedimento que o presidente Bill Clinton e seus assessores têm mostrado na celebração da vitória da aliança atlântica na guerra contra a Iugoslávia foi plenamente justificado na sexta-feira.
Apenas algumas horas depois de ter comemorado o sucesso militar dos aliados num discurso na base aérea de Whiteman, em Missouri, de onde decolaram os bombardeiros B-2 que atacaram alvos em Kosovo e na Sérvia, Clinton foi supreendido pela entrada de tropas russas em Kosovo.
A iniciativa de Moscou, claramente calculada para afirmar o papel da Rússia de aliada e protetora dos sérvios na determinação do futuro da região, causou perplexidade e confusão em Washington, mas acabou sendo deliberadamente reduzida à categoria de "equívoco" para negar importância ao episódio.
Se a decisão unilateral do Kremlin suscitou perguntas sobre a existência de um possível acordo secreto entre Moscou e Belgrado sobre a partilha de Kosovo, a grande preocupação entre os especialistas americanos em política externa é que os EUA tirem lições erradas do conflito.
O próprio Clinton alimentou essa preocupação ao dizer que o desfecho do conflito deve levar as nações democráticas a organizar-se para agir em nome de princípios humanitários e impedir que, no futuro, governos levem a cabo campanhas de limpeza étnica.
"Esse é um conceito maravilhoso", disse o presidente do Woodrow Wilson Center, Lee Hamilton, um respeitado ex-deputado democrata. "A questão é saber como, onde e com quem colocá-lo em prática", acrescentou o ex-deputado. Para Hamilton, que prefere classificar o desfecho da guerra "um sucesso e não uma vitória", criou um extraordinário precedente nas relações internacionais, para o qual os líderes dos EUA precisam atentar para não tirar licões equivocadas do conflito e assumir compromissos que os americanos não estão dispostos a apoiar.
"Entramos com toda a força da OTAN numa nação soberana, onde uma ditadura estava maltratando seu próprio provo", disse Hamilton. "Isso nunca aconteceu antes e Clinton indicou que faremos isso outras vezes no futuro, ainda que com uma importante ressalva: interviremos onde tivermos capacidade para fazê-lo."
Lawrence Eaglerburger, um ex-diplomata de carreira que foi o último secretário de Estado do governo republicano de George Bush compartilha a preocupação de Hamilton. "Estamos correndo o perigo de estabelecer que esse tipo de intervenção é algo em que nos engajaremos regularmente no futuro", disse ele. "Mesmo que isso não ocorra, o fato de termos realizado esta operação forçará administrações futuras a ter de explicar por que não fazer o mesmo se circunstâncias semelhantes se apresentarem em outros países."
Segundo Eaglerburguer, o que preocupa é a impressão que os EUA dão ao mundo nas últimas semanas de que são o valentão do quarteirão: "Apertamos um botão, alguém morre do outro lado e o único custo para nós é o do míssil que acionamos." O fato de Clinton ter rejeitado publicamente essa crítica não tranquilizou o ex- secretário de Estado.
"O que o mundo está vendo é os EUA como o poder hegemônico, mas um poder hegemônico que está preparado para matar outros povos para demonstrar-lhes o que quer mas não para está preparado para assumir riscos para fazê-lo", disse ele, referindo-se à estratégia de guerra que Clinton adotou, de descartar de início a mobilização de forças terrestres e conduzir a campanha aérea de maneira a maximizar a superioridade tecnológica de suas forças e minimizar as baixas, por temer que a opinião pública se voltaria contra a ação punitiva se ela custasse a vida de soldados americanos.
Para Zbigniew Brzezinsky, o ex-conselheiro de segurança nacional do governo democrata de Jimmy Carter, o problema é real e foi exacerbado pela forma como a guerra foi conduzida por Clinton. "O fato de termos indicado que damos um valor muito maior à vida dos nossos soldados profissionais do que às vidas de talvez milhares de kosovares e de centenas de sérvios tem o efeito de criar a impressão de que agimos motivados por uma espécie de racismo tecnológico", disse Brzezinsky.
No final do mês passado, Thomas Gerrity, o presidente do Amherst College, de Massachusetts, afirmou que "a causa da guerra não é justa, não porque os kosovares de origem albanesa não mereçam o nosso apoio contra a campanha de genocídio de Milosevic, mas porque a causa justa é aquela pela qual estamos prontos não apenas a matar, mas também a morrer".
Uma das consequências do problema de percepção dos EUA criado pela guerra "é um profundo ressentimento contra o nosso país, não apenas na Rússia e na China, mas entre os próprios europeus, que decidiram agora organizar usa própria estrutura militar", advertiu Hamilton.
A guerra demonstrou que "somos o mais poderoso país do mundo, que somos a nação indispensável, e várias outras coisas positivas, mas deixou esse ressentimento e temos que ser extremamente sensível para isso na condução de nossa política externa".
Para Eagleburger, o problema de percepção externa dos EUA criado pela demonstração de tecnológica é o único desafio que o conflito do Kosovo deixou. "Preocupa-me, também, a maneira como olhamos para nós mesmos", disse ele. "Com a guerra do Iraque e, agora, a guerra do Kosovo, estamos começando pensar que a guerra não é algo custoso."


