EUA e Europa voltam à guerra por causa de OGM Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 23 (AE) - Agora que a guerra do Kosovo terminou, a Europa e os Estados Unidos podem, tranquilamente, retomar seu exercício preferido: a disputa. Os pretextos pululam. São, sobretudo, econômicos. Hoje, um excelente "motivo bélico" nos permite aguardar uma interessante batalha entre Washington e a União Européia: esse "motivo bélico" chama-se OGM - organismos geneticamente modificados.
Nesse domínio, que diz respeito à modificação genética de alguns organismos (especialmente a soja, o milho e a couve), anos-luz separam as duas margens do Atlântico.
Os Estados Unidos não são somente líderes do mercado transgênico. Podemos dizer que eles são os únicos ou quase, graças às suas sociedades gigantescas (Monsanto ou Pionneer). Vinte e cinco por cento do milho, 30% da soja e 50% do algodão produzidos nos Estados Unidos já são geneticamente modificados. A Europa, muito retardatária, constitui, portanto, um mercado suculento que os produtores americanos cobiçam.
É preciso dizer que as disputas econômicas não são negligenciáveis. O mercado virtual da Europa, para as sementes transgênicas é avaliado em vários bilhões de dólares a partir do próximo ano.
Simplesmente, a Europa se revolta. Há alguns meses os agricultores europeus expressam sua desconfiança. Hoje são os próprios governos. De acordo com a proposta do ministro grego Theodoros Koliopanos haverá uma reunião dos ministros europeus do Meio Ambiente, na quinta e sexta-feiras, em Luxemburgo.
A questão: é preciso aceitar a invasão da agricultura européia pelas sementes transgênicas dos Estados Unidos? Não se deve, diante desse "salto" tecnológico, aplicar "o princípio de precaução"? Alguns países vão mais longe: pedem uma "moratória" enquanto essas famosas sementes transgênicas não demonstrarem sua inocuidade.
Resumamos os temores suscitados pelos OGM: os genes introduzidos nos OGM correm o risco de se difundir para outras plantas. Por exemplo, o gene de resistência aos antibióticos permitiriam aos organismos parasitas, às plantas com problemas, sobreviverem aos antibióticos com os quais são erradicados. Outro perigo, mais ecológico: a semente transgênica reforçaria a resistência aos pesticidas e, então, favoreceria a expansão de outras plantas além das cultivadas. A biodiversidade diminuiria e os ecossistemas se arruinariam - um dos mais graves perigos da agricultura tecnológica atual.
Essas são razões científicas, sanitárias e agronômicas. Além disso, a resistência dos europeus é tirada, sem dúvida, de fontes mais obscuras: o terror de fazer do homem um "demiurgo" que começaria a revirar as grandes leis da natureza, a perturbar seus equilíbrios, a cometer uma espécie de sacrilégio, transformando em produtos fabricados tudo o que a natureza, a terra nos oferece.
Vê-se que, além das inquietações técnicas, a chegada dos OMG levanta, na realidade, questões nitidamente metafísicas.





