EUA e Europa travam guerra comercial Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 14 (AE) - Ainda enquanto Europa e Estados Unidos travavam juntos uma guerra em Kosovo, já se preparavam para outra guerra que, desta vez, iria colocar em confronto não as "nações livres" contra a ex-Iugoslávia, mas sim as nações livres entre si: a Europa contra os Estados Unidos. E hoje, esta guerra entre as duas margens do Atlântico está ficando violenta. E irá agravar-se por ocasião do Millenium Round, daqui a dois meses, em Seattle.
Com certeza, esta nova guerra opera sem canhões, sem mísseis nem fuzis. E mesmo sem dardos , sem flechas, sem machetes. Ela se fará com direitos alfandegários, quotas de importação, subsídios á produção, fusões de empresas, etc. Apesar disso, batalhas e vitórias dependerão do nível de vida, do nível de felicidade de bilhões de seres humanos.
Ela interessa a todos os ramos da economia, mas, por enquanto
é no campo da agricultura, da alimentação, que se faz o maior estardalhaço: os Estados Unidos querem impingir aos europeus carne bovina com hormônios, OGMs - organismos geneticamente modificados, como soja, milho, etc. - Mas a Europa não aceita.
É eloquente que os combates mais violentos sejam em torno da agricultura e da alimentação. Isso significa que , além dos interesses financeiros monstruosos que estão em jogo (bilhões e bilhões de dólares) e dos orgulhos nacionais ou políticos, uma das raízes do conflito vai muito além: está radicada no inconsciente histórico dos dois blocos que se enfrentam. O conflito se abebera nessa fonte que vem da "noite dos tempos" e que é um dos fundamentos da cultura: a maneira de se alimentar.
Basta pensar o que representa para um francês o pão ou o vinho, o enraizamento destes dois alimentos no "solo" pátrio (Bourgogne, Bordeaus, etc.), na memória e na tradição, ou o que significa para um alemão a cerveja (cujo grau de pureza ainda é regulamentado por normas da Idade Média) para compreender o que separa a América da Coca-Cola e do McDonalds da Europa que se preza de sua alimentação...
Estas paixões da Europa por seu alimento acabam de receber uma forte ilustração em torno da figura de um francês, José Bové
um camponês de uma região pobre, que passou alguns dias preso por ter saqueado um McDonalds.
Em poucas horas, toda a França se ergueu na ponta dos pés, numa atitude altiva, em favor do "Robin dos Bosques" que luta contra o McDonalds, O governo o apoiou. Os ecologistas também. Os comunistas o aplaudiram. Os trotskistas o admiraram. Tudo isso é normal: um pequeno produtor rural francês desafiando os "monstros frios", o Leviatã americano - isso não podia deixar de entusiasmar a esquerda, a extrema esquerda.
Mas a direita não ficou atrás: o jornal da grande burguesia liberal, Le Figaro, publicou um artigo de seu diretor, F.O.Giesbert, elogiando este "resistente". Estranho! Porque este camponês anti-McDonalds pertence ao grupo "anarquista". Ora, não importa! Esse camponês conseguiu este façanha: resgatar o parentesco que une a grande burguesia ao anarquismo. Um verdadeiro conto de fadas? Ou uma história de terror?
Com certeza, as discussões de Seattle, que deverão ser muito duras, serão também batalhas financeiras gigantescas. Mas não se poderia comrpreendê-las se não se recordasse este fundamento que dá a virulência à guerra. Muito além da carne bovina com hormônios, das OGMs, existe o duelo entre povos de camponeses e um povo sem camponeses.
O príncipe Charles da Inglaterra (país onde entretanto a cozinha raramente é uma obra-prima) captou tudo isso, ao introduzir, no âmago da controvérsia, o próprio Deus em pessoa: "Jamais, jamais estes alimentos desnaturados atravessarão meus lábios. As modificações genéticas arrastam a humanidade a um campo que não pertence a Deus".





