Paris, 02 (AE) - A viagem de Madeleine Albright à China respeita os rituais e os protocolos do exercício: desembarca-se em Pequim. Debulha-se frases sobre os "direitos humanos". Pequim sorri. Em seguida, a Agência Chinesa de Notícias publica um artigo feroz sobre os "direitos humanos nos Estados Unidos".
Uma vez cumpridas essas formalidades, e tendo cada um cumprido seu dever, iniciam-se as coisas sérias. Neste ano, as coisas sérias têm aparências, sobretudo, sombrias. Enquanto a viagem de Clinton à China, em junho de 1988, distinguiu-se por um reaquecimento das relações sino-americanas e, de alguma maneira, o fim do período "Praça da Paz Celestial", a missão de Albright, neste ano de 1999, indica, ao contrário, um novo choque de gelo.
Neste caso, o esquema ainda é simples: os chineses são demandadores de certas coisas. Os Estados Unidos de uma outra coisa. Junta-se tudo, agita-se, e observa-se a possibilidade de se encontrar um "modus vivendi".
Para Washington, o ponto negro é a transferência das tecnologias sensíveis. Os chineses buscam, pelos mais hábeis meios, munir-se dos segredos das altas tecnologias. Há poucos dias, um chinês, um certo Yao Yi, quis comprar, para uma universidade chinesa, "giroscópios" de fibra ótica junto a um fabricante de Massachussets. Muito bem! Mas Washington sabe que esses giroscópios são indispensáveis para regular mísseis de alta precisão.
Esse foi apenas um episódio, mas esses negócios são constantes, mesmo se Washington não os divulgou mais, nos últimos meses. Estavam em um momento de "pleno amor" e não quiseram atrapalhar, por esse gênero de rebarba, o "flerte" Pequim/Washington.
Hoje, ao contrário, os americanos dão uma certa repercussão a essas inabilidades chinesas. É que o "tempo de amores" entre os dois países, no momento, passou. Sem que se possa falar, realmente, de uma volta da "guerra fria", é verdade que os Estados Unidos desconfiam muito dos dispositivos militares administrados, pela China, em sua zona entre Taiwan e Coréia do Sul.
Os chineses reivindicam uma série de ilhas que se estendem desde as costas da Malásia até as Filipinas (por exemplo, as ilhas Senkaku, Paracel e Spratly). Certamente, essas ilhas são "confetes" sem grande interesse, mas podem tornar-se, se dois ou três países as disputam, detonadoras de incêndio.
Por isso Washington engrossou a voz. Particularmente, os Estados Unidos conduzem um projeto de defesa antimísseis em cooperação com a Coréia do Sul e o Japão. Em princípio, esse projeto de proteção antimísseis visa apenas a Coréia do Norte (comunista). Mas os chineses não são tolos. Eles suspeitam que, na realidade, o projeto americano destina-se a Pequim. E a presença, entre os participantes dessa defesa antimísseis, de Taiwan, inimigo sagrado de Pequim, não deixa dúvidas sobre essa questão.
Reação dos chineses a essas ameaças: acumulam os projéteis balísticos nas províncias do sudeste da China continental, ou seja, exatamente em frente a Taiwan. Isso provocou uma réplica do presidente de Taiwan, Lee-Teng-Hui, no último Financial Times: "É preciso tomar consciência do fato de que Taiwan é uma zona independente e soberana, assim como uma entidade política".
Assim, convém recolocar em seu devido nível os "gritinhos" dos Estados Unidos sobre a questão dos "direitos humanos" tratados com desdém na China. Não é mais do que teatro. A realidade apresenta, na verdade, outras aparências, e mais inquietantes: uma luta surda, tenaz sobre os problemas de segurança na zona geopolítica controlada pela China.

mockup