Washington, 29 (AE-IPS) - Os Estados Unidos consideram duplicar a ajuda militar que oferecem à Colômbia e aprofundar sua intervenção na guerra civil de 30 anos no país, mas o governo de Bill Clinton continua dividido sobre o rumo que deve tomar sua política em relação a Bogotá.
A presença americana está sendo intensificada na Colômbia, como demonstra a visita a Bogotá do general retirado Barry McCaffrey, chefe da agência antidrogas da Casa Branca.
Ontem foram recuperados os corpos de quatro dos cinco militares americanos que estavam num avião de reconhecimento que bateu contra uma montanha colombiana nas proximidades da fronteira com o Equador na semana passada.
A Colômbia é o maior receptor de assistência militar de Washington, depois de Israel e Egito. Cerca de 200 oficiais militares americanos se encontram no país para realizar operações de treinamento, inteligência e erradicação de cultivos de drogas.
O país é a maior fonte de cocaína e cada vez abastece mais de heroína o mercado dos Estados Unidos. Mas Washington não se decide sobre o rumo que deve tomar sua política para a Colômbia.
Os Estados Unidos apoiaram as gestões que o presidente colombiano Andrés Pastrana deu início há um ano para promover um processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o maior grupo guerrilheiro do país e o mais antigo da América Latina.
Na semana passada, Clinton reiterou seu apoio a Pastrana. "Enquanto não se ponha fim à discórdia civil na Colômbia, teremos muito mais dificuldade em limitar as atividades dos narcotraficantes ali", declarou.
Mas analistas políticos acreditam que a política de paz acabou debilitada, se não anulada, pelos acontecimentos dos últimos dias, e que funcionários como McCaffrey e outros no Pentágono, que apoiam uma ajuda militar maior para o exército colombiano, estão ganhando a batalha interna.
"O que ocorre é que as pessoas com opiniões como a dele (McCaffrey) estão preenchendo o vazio político", comentou Michael Shifter, especialista em Colômbia do centro de estudo Diálogo Interamericano.
"Agora estão no controle os que são a favor de uma maior ajuda militar", afirmou.
Os partidários da opção militar ainda enfrentam setores do Conselho de Segurança Nacional e do Departamento de Estado que temem que a ajuda militar alimente a violência e destrua a esperança das negociações de paz, sem reduzir o narcotráfico.
"Um grande pacote de ajuda militar jogará gasolina no fogo", disse Winifred Tate, analista da organização não-governamental Escritório de Washington para América Latina, um grupo de direitos humanos.
A produção de drogas aumentou na Colômbia na última década apesar de neste período também ter havido um aumento na ajuda destinada à luta antinarcóticos, afirmou.
"Inclusive, alguns militares americanos reconhecem que uma hipotética derrota das FARC (acusadas por Washington de narcotráfico) não teria grandes consequências sobre as drogas", assinalou.
Para os defensores do processo de paz, as últimas semanas produziram grandes desilusões.
Uma grande ofensiva das FARC, travando combates a 40 km de Bogotá, revelou a debilidade do exército e a agressividade da guerrilha, apesar de que há um ano se comprometeu a participar das negociações.
A postergação por tempo indeterminado das negociações, poucas horas antes de seu início, também destacou a debilidade do próprio processo de paz, segundo analistas.
Por outro lado, a visita a Washington do ministro da Defesa colombiano, Luis Ramírez, e do comandante das Forças Armadas, general Fernando Tapias, deu a oportunidade à Colômbia de solicitar US$ 500 milhões em ajuda militar.
Legisladores do oposicionista Partido Republicano, que detêm a maioria no Congresso, apoiaram rapidamente o pedido.
Para não ficar para trás, McCaffrey pediu US$ 1 bilhão em ajuda adicional de emergência para a luta contra o narcotráfico nas Américas no próximo ano, do qual US$ 600 milhões serão destinados à Colômbia.
Este ano, Bogotá receberá quase US$ 300 milhões de ajuda contra as drogas, três vezes mais do que recebeu em 1998.
A maior parte do dinheiro vai para a polícia nacional, mas US$ 40 milhões são para as Forças Armadas, com a condição de que não sejam destinados a unidades do exército acusadas de violação dos direitos humanos ou a paramilitares de direita, responsáveis por graves atos de violência.
O problema fundamental é que Washington ainda não decidiu qual é sua prioridade na Colômbia e como a ajuda ao exército, cuja meta é derrotar a insurgência, pode conquistar este objetivo.
"O propósito da política dos Estados Unidos na Colômbia é derrotar a guerrilha?", perguntou Shifter, do Diálogo Interamericano, em uma coluna no diário The Los Angeles Times.
"É por acaso reduzir a produção de drogas ou... aplainar o terreno, o que melhoria o peso do governo colombiano nas negociações de paz com os insurgentes?", acrescentou.
A resposta é "todas as opções anteriores", segundo Shifter, porque McCaffrey, o Pentágono e os legisladores republicanos vêem os insurgentes, que impõem tributos sobre a produção de drogas em zonas sob seu controle, como o inimigo na luta contra o narcotráfico. Mas esta interpretação apaga a distinção entre a luta contra as drogas e a guerra contra-insurgente já que, apesar de relacionadas, são distintas.
"O argumento é que, ao aumentar o apoio aos militares, os Estados Unidos podem conseguir vários objetivos quando, de fato, esses objetivos talvez seja excludentes", disse Tate.
O dinheiro solicitado para a ajuda militar na Colômbia, assim como o pedido de mais soldados americanos, como os que morreram no acidente aéreo na semana passada, requerem um grande debate sobre a conveniência e coerência do rumo atual da política dos Estados Unidos, segundo Tate e Shifter.
"Em Kosovo deu-se prioridade a evitar as baixas americanas, e agora que tivemos cinco mortes (na Colômbia), quase não houve reação", lembrou Tate.

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