Bogotá, 25 (AE-IPS) - O Comando Sul do Exército dos Estados Unidos considera a Colômbia "uma ameaça para o hemisfério" por causa da insegurança que reina em suas fronteiras. Num informe ao Senado americano, o chefe do Comando Sul, Charles Wilhelm, afirmou que as atividades guerrilheiras, o narcotráfico e os grupos paramilitares de direita da Colômbia oferecem um risco para os países vizinhos.
O Panamá, destaca o documento, não tem capacidade "de defender a soberania de sua fronteira", em especial diante das repetidas incursões das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) na região de Darién (zona de selvas fronteiriça). "Operando desde refúgios no sul e leste da Colômbia, (os guerrilheiros) estão estendendo seus domínios" na província de Darién "no Panamá, e mesmo na Venezuela, Brasil, Equador e Peru", afirmou Wilhelm.
Panamá e Equador reforçaram nas últimas semanas a vigilância na fronteira para proteger-se da guerrilha colombiana e o presidente do Peru, Alberto Fujimori, sugeriu no começo do ano ações conjuntas para enfrentá-la.
A Venezuela teve por seu lado de acolher no fronteiriço estado de El Zulia centenas de refugiados que no final de maio abandonaram suas casas na localidade colombiana de La Gabarra (nordeste) ameaçados por paramilitares de direita.
Na opinião de Wilhelm, não existem dúvidas de que a presença dos Estados Unidos (que cesssará em 31 de dezembro de 1999) no Panamá tem sido "um elemento essencial" para garantir a segurança na zona e seria "uma boa alternativa" maanter forças norte-americanas para preservá-la.
As declarações de Wilhelm foram feitas em resposta às preocupações expressadas por vários congressistas da oposição republicana de seu país que vêem com temor como a situação da ordem pública na Colômbia afeta terceiros países.
"Estamos presenciando a balcanização da Colômbia. O presidente Andrés Pastrana continua fazendo concessões" às guerrilhas, enquanto estas "intensificam seus esforços para depreciar uma paz e uma estabilidade que agora também ameaçam os países vizinhos", afirmou.
Entretanto, Wilhelm reconheceu os esforços do governo do presidente Pastrana para buscar um acordo negociado com a guerrilha e dos líderes militares que "estão impulsionando reformas que tornarão mais eficazes as forças de segurança".
O chanceler do Panamá, Jorge Ritter, referindo-se às declarações de Wilhelm, considerou "inaceitável" que se tente vincular o tema da fronteira com a Colômbia com o do Canal do Panamá. "Panamá e Colômbia não sustentam nenhum tipo de conflito" entre eles e as questões fronteiriças não podem ser "exageradas com finalidades estranhas", disse ele a uma rádio local.
As afirmações de Wilhelm foram interpretadas pelo chefe do oposicionista Partido Liberal (PL) da Colômbia, Horacio Serpa, como "um pretexto para manter a presença dos Estados Unidos na zona do Canal do Panamá" e representam "uma possível intervenção" americana nos assuntos internos da Colômbia. "Elas estão relacionadas mais com a defesa de alguns funcionários norte-americanos de que no Panamá permaneçam tropas daquele país" usando a desculpa de que a "Colômbia representa um perigo continental", afirmou.
Serpa recordou que a eventual intervenção militar americana na Colômbia começou a circular "como rumor no ano passado não só em reuniões acadêmicas como em encontros sociais e políticos". Em dezembro surgiram versões de que o Comando Sul havia consultado vários governos da região sobre a proposta de se constituir uma força multilateral para enfrentar a guerrilha colombiana.
Em duas reuniões organizadas naquele mesmo mês em Washington e Pensilvânia, a Colômbia foi considerada "um país problema" para a segurança do hemisfério ocidental.
Juan Esguerra, ex-embaixador em Washington, considerou que apesar de o pronunciamento de Wilhelm não poder ser considerada uma declaração "oficial" do governo dos Estados Unidos, ele de certa maneira reflete a posição de um importante setor dos mais altos círculos do poder desse país.
Segundo Esguerra, os Estados Unidos "têm meios e caminhos extraoficiais para expressar suas preocupações oficiais" e é preciso saber ler as "entrelinhas" das declarações do chefe do Comando Sul.
O senador Enrique Gómez, do governista Partido Conservador, considerou que "infelizmente é verdade que a guerrilha colombiana é um perigo para a região". A insurgência se converteu num "cartel de bandidos que sequestra nacionais e estrangeiros, e negocia com narcotraficantes", acusou.
Para Gloria Cuartas, representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para temas da mulher e da paz, "a guerrilha está dando argumentos aos Estados Unidos e ao governo de Pastrana para saídas militaristas". Pretendendo constituir-se numa "polícia da segurança hemisférica", Washington tem levado a cabo "intervenções militares que visam assumir o controle econômico, político e social" na região, acrescentou.
A solução "não é a guerrilha, nem os paramilitares, nem o Exército, nem as ajudas militares dos Estados Unidos", mas sim "uma solução negociada do conflito, na qual participem todos os colombianos a fim de se conseguir um país onde fiquemos todos", afirmou.

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