Washington, 24 (AE-REUTERS) - É a época de sermões em Washington, quando a única superpotência aponta seu dedo para amigos e adversários em todo o mundo nas questões de direitos humanos, terrorismo e drogas, sendo que este ano foi acrescentada a categoria corrupção para ter-se uma boa receita.
A série de relatórios do Departamento de Estado, pedidos pelo Congresso, provoca anualmente irritação, resentimento e acusações de hipocrisia por parte daqueles atingidos.
Muitos em Washington, que falam da necessidade de os Estados Unidos definirem sua liderança num mundo pós-Guerra Fria, considera- os uma provocação desnecessária. Grupos de direitos humanos acreditam que as vantagens superam os aspectos negativos.
Samuel Huntington, um professor da Harvard e especialistas em estudos estratégicos, num cáustico comentário no jornal Foreign Affairs, escreveu que autoridades americanas "tendem naturalmente a agir como se o mundo fosse unipolar.
"Eles dão lições a outros países sobre a validade universal dos princípios, práticas e instituições americanos", disse ele, e lembrou como o presidente Bill Clinton irritou seus convidados na cúpula de Denver de 1997 falando a eles como deviam administrar suas economias.
Tem havido um exercício intelectual para definir o papel dos EUA. A secretária de Estado Madeleine Albright fala da "nação indispensável". O subsecretário do Tesouro Lawrence Summers fala da "primeira superpotência não-imperialista".
Enquanto a cultura e idéias americanas ainda tenham um imenso apelo popular de Teerã a Paris, de Xangai a Sydney, governos estrangeiros têm uma resposta menos favorável, menos cooperativa para com o que o presidente francês, Jacques Chirac, chama de a "hiperpotência".
Os relatórios anuais do Departamento de Estado realçam para muitos a visão das tendências hegemônicas americanas.
A série começa na sexta-feira com o relatório sobre os direitos humanos, uma análise estado a estado que dá um puxão de orelhas na China, Irã, Iraque e muitos outros estados com sistemas autoritários, mas que também critica violações em outras nações mais democráticas.
A seguir vem o relatório sobre drogas, no qual estados são certificados segundo sua cooperação ou obstrução aos esforços americanos para bloquear o fluxo de drogas para os Estados Unidos, e posteriormente aparecem os relatórios sobre perseguição religiosa e expoentes do terrorismo de estado.
Esta semana Washington está promovendo uma conferência sobre corrupção, com líderes dos EUA oferecendo conselhos a países menos desenvolvidos sobre como acabar com a corrupção.
Muitos participantes, incluindo líderes latino-americanos, estarão procurando por boas idéias, mas também se mostram prontos para apontar para um passado não muito distante de envolvimento de Washington no continente e mostrar sinais de que algumas vezes a sujeira está por todos os cantos.
Abrindo a conferência, o vice-presidente Al Gore curvou-se ao argumento. "Nenhum país tem o monopólio da corrupção... Nenhuma nação tem o direito de dar lições a qualquer outra", disse.
Mas James Lilley, que tinha que enfrentar os efeitos do relatório dos direitos humanos criticando a China quando era embaixador em Pequim, afirmou à REUTERS que a tabela de classificação anual dos EUA tem um lado negativo.
"O relatório dos direitos humanos faz as pessoas ficaram tão irritadas que algumas vezes ele põe em risco alguns programas positivos. Assim, neste sentido ele é negativo", disse.
Mas no final ele acabou defendendo a continuação da prática, que teve início na década de 70.
Ele afirmou que os relatórios dos direitos humanos são essencialmente acurados e justos, e servem para afastar "toda hipocrisia e todas as mentiras e toda a enganação colocadas na questão dos direitos humanos por países que estão protegendo a eles mesmos".
Mike Jendrejczyk do grupo de pressão Human Rights Watch defende os relatórios. Mas ele disse que os Estados Unidos estão expostos a acusações de hipocrisia por causa de seu uso generalizado da pena de morte, frequentes casos de brutalidade policial e bolsões de massacrante pobreza numa nação no geral de afluente.
Agências da ONU prefeririam ver os Estados Unidos agindo através dos organismos internacionais ao invés de unilateralmente.
Pino Arlacchi, chefe do escritório da ONU para o Controle de Drogas e Prevenção de Crimes, afirmou a repórteres que ele esperava que o Congresso pusesse fim ao processo de certificação.
"Deveria haver uma avaliação, mas multilateralmente. Acho que esta idéia é compartilhada por muitos", disse.
Não há dúvida de que países sintam o golpe, não importa quão defensivamente reajam, ao receberem uma nota ruim nos relatórios sobre drogas e direitos humanos dos EUA, seja por temor de represálias econômicas ou um genuíno senso de preocupação.
No ano passado, depois de a China receber as esperadas críticas por encarcerar dissidentes e esmagar idéias independentes, as autoridades comunistas elaboraram uma refutação de 30.000 palavras.
"Atualmente, quando propostas de diálogo e a oposição à confrontação tornaram-se uma irressistível tendência histórica, os Estados Unidos já receberam forte oposição e resistência de nações de todo o mundo por se apegar a uma relíquia da Guerra Fria - o Relatório dos Direitos Humanos", foi escrito.

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