Washington, 16 (AE-AP) - Numa decisão que aumentou os rumores sobre preparativos para invasão da Iugoslávia, os Estados Unidos anunciaram hoje (16) a convocação para breve de "um número significativo" de reservistas para fortalecer as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) nos Bálcãs.
"Não tenho ainda informação sobre o total de reservistas que chamaremos", disse o secretário da Defesa americano, William Cohen. O jornal The New York Times estima em mais de 30 mil.
Segundo o diário, a medida vai causar grandes transtornos aos reservistas e suas famílias.Muitos deles terão de abandonar temporariamente as escolas e os empregos (a notícia causou tensão em muitos empresários).
Boa parte do contingente seria constituída de pilotos de jatos, técnicos aeronáuticos e tripulantes de aviões, treinados pela Guarda Nacional. O NYT destaca que a indústria aeronáutica, que emprega a maior parte desse pessoal altamente especializado, seria o setor mais prejudicado.
Outros dois fatos que estimularam as especulações sobre um eventual ataque terrestre em Kosovo ocorreram em Londres e Moscou.
O secretário da Defesa britânico, George Robertson, afirmou que a Otan mantém a opção do uso de tropas. "Evidentemente, continuamos acreditando que a campanha aérea forçará Milosevic a negociar."
Por sua vez, as autoridades militares russas calcularam que as tropas da Otan estarão aptas para a invasão num prazo que varia de uma a duas semanas.
O presidente Boris Yeltsin rechaçou recentemente qualquer tentativa do uso de forças terrestres da Otan no conflito. "Isso vai mergulhar o mundo em uma nova guerra", disse ele ao insinuar que poderia reapontar seus mísseis intercontinentais russos, com suas ogivas nucleares, contra os países membros da aliança.
A propósito, a poderosa frota russa do Mar Negro iniciou hoje manobras navais, que envolvem pelo 30 navios. O porta-voz da Marinha russa, Andrei Grachev, não quis dizer se os exercícios militares tinham alguma vinculação com a crise nos Bálcãs. "Não temos nenhuma intenção de deslocar mais unidades navais para o Mediterrâneo", limitou-se a dizer. Um navio de espionagem eletrônica da frota russa encontra-se no litoral do Mar Adriático, acompanhando as operações navais da Otan contra a Iugoslávia.
O chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, general Henry Shelton, admitiu que os bombardeios, por si só, não vão deter a repressão sérvia contra os albaneses étnicos. Ele defendeu o fortalecimento do Exército de Libertação de Koso (ELK) - grupo guerrilheiro separatista que luta contra o regime de Belgrado. "A campanha aérea ininterrupta eventualmente pode fortalecer o ELK, alterando o equilíbrio de poder militar (hoje, amplamente favorável ao Exército sérvio)."
Em Bruxelas, o porta-voz da Otan, Jamie Shea, classificou o ELK de "ave fênix emergente das cinzas". Os rebeldes albaneses étnicos estão combatendo os sérvios ao longo da fronteira albanesa. Hoje, três guerrilheiros foram mortos pela artilharia sérvia, que continua fazendo disparos contra aldeias no interior da Albânia.
Segundo Shea, a aviação da Otan atacou blindados e tropas sérvias hoje nessa região, no conjunto de uma operação militar definida como uma das mais bem-sucedidas dos últimos dias.
O porta-voz disse que foram "neutralizados" grandes depósitos de munições perto de Belgrado, blindados e baterias de mísseis. Ele justiticou o bombardeio do aeroporto de Podgorica (capital de Montenegro). "Era uma ameaça crescente para as forças aliadas estacionadas na Albânia."
Foram atacados ainda alvos em Novi Sad (norte) e Subodica (perto da fronteira húngara).
Shea referiu-se também ao ataque ao comboio de refugiados quarta- feira na rodovia de Djakonica na quarta-feira. Reafirmou que a aviação da Otan "atingiu um trator num erro lamentável, mas nada teve a ver com ataques ocorridos na mesma rodovia mais ao sul".
Em Belgrado, a agência Tanjug informou que 24 pessoas ficaram feridas nas explosões de hoje. Dezessete trabalhavam na refinaria de petróleo de Pancevo, "duramente castigada pelo bombardeio inimigo."
A ONU denunciou uma nova onda de expulsão de kosovares, que são forçados a atravessar "verdadeiros corredores de terror". Mais de 4 mil chegaram à fronteira macedônia e pelo menos 8 mil cruzaram a albanesa. E o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, James Rubin, disse dispor de evidências de novos massacres de albaneses étnicos em Kosovo e da destruição de mais de 400 vilas pelo Exército sérvio.
A França, por sua vez, decidiu lançar alimentos e remédios de pára-quedas sobre áreas de Kosovo onde há grandes concentrações de refugiados.

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