Nova York, 13 (AE-IPS) - O homem que assumiu ter promovido um ataque a tiros contra um centro comunitário judaico na Califórnia disse ao entregar-se ao FBI que "queria matar judeus para despertar " os Estados Unidos.
Mas Buford Furrow Jr. não conseguiu atingir seu objetivo. Nenhuma das cinco pessoas, quatro delas crianças, atingidas por seus tiros na terça-feira nas proximidades de Los Angeles, morreu até agora.
Entretanto, Furrow, de 37 anos, também acusado de assassinar um carteiro filipino-americano no mesmo dia, conseguiu sim chamar a atenção para a proliferação de grupos racistas neste país, que não vacilam em disparar contra crianças de cinco anos para "enviar uma mensagem".
A polícia informou que Furrow disse, depois de entregar-se na quarta-feira, que havia matado o carteiro devido à cor de sua pele, pela qual supôs que tratava-se de um latino ou asiático.
Segundo investigadores de grupos que promovem o ódio, à medida que se aproxima o fim do século, aumenta a atividade da direita racista americana.
"Existem pessoas que afirmam abertamente que o ano 2000 tem muita importância", disse Chip Berlet, analista do Political Research Associates, uma organização de Massachusetts que perseguem grupos que promovem o ódio.
Para muitos integrantes da direita racista, os próximos anos serão muito importantes porque consideram que a chegada do novo milênio significa o advento de uma "guerra racial".
Os vínculos de Furrow com a direita racista americana foram facilmente detectados.
A foto de Furrow, vestido como oficial de segurança em uma conferência realizada pelo grupo de extrema-direita Aryan Nations (Nações Arianas) foi publicada num informe de 1996 divulgado pela Liga Antidifamação (ADL), uma organização judaica com sede em Nova York.
Os conhecidos de Furrow informaram que ele viveu com Denise Mathews, viúva do fundador do grupo extremista The Order (A Ordem), uma violenta ramificação do Aryan Nations, que roubava bancos e colocava bombas no oeste dos Estados Unidos nos começo dos anos 80.
Acreditava-se que The Order havia se dissolvido depois que as autoridades prenderam a maioria de seus líderes em 1985, mas os disparos efetuados por Furrow em Los Angeles, e os posteriores informes sobre seu ódio contra os judeus, fizeram com que as atenções se voltassem novamente para as atividades do grupo.
Berlet afirma que, longe de ser uma ramificação extremista do Aryan Nations, The Order é "a forma aplicada da ideologia" daquele grupo, e muitos ainda compartilham suas atitudes violentas.
Vários grupos de direita americanos estão preocupados com o fato de milhares de brancos dos EUA continuarem participando do Aryan Nations e de outros grupos que compartilham a ideologia da "Identidade Cristã", uma versão declaradamente racista do cristianismo.
"O movimento Identidade Cristã afirma que os judeus são as sementes de Satã, que os negros e latino-americanos são gente de barro, sem alma", disse Gail Gans, diretora do Centro de Informação de Direitos Civis da Liga Antidifamação.
Berlet afirma que a versão do Aryan Nations das crenças da Identidade Cristã diferem muito pouco da dos grupos neonazistas.
A ideologia, formulada pelo líder de Aryan Nations, Richard Butler, relaciona-se com os escritos anti-semitas de Henry Ford e com textos racistas como "O Protocolo dos Sábios de Sion".
O Identidade Cristã acredita que para a volta de Jesus à Terra é preciso eliminar do planeta as pessoas impuras, como os judeus, latinos e negros.
Aryan Nations, cuja sede fica nas proximidades de Hayden Lake, no estado de Idaho, é um grupo da Identidade Cristã que em várias ocasiões esteve ligado à violência, sustenta Gans.
"Existem alguns grupos que são definitivamente perigosos porque recorrem à violência" e Aryan Nations, como o The Order, se encaixam nesta definição, acrescentou.
Em 1996, Aryan Nations publicou sua própria versão da Declaração da Independência, na qual afirmava que "a história do atual Governo de Ocupação Sionista dos Estados Unidos... é uma história de repetidos prejuízos e usurpações".
Por isso, o grupo liberou seus membros da fidelidade ao governo federal dos Estados Unidos e pediu que fosse formada uma nova nação "livre e independente" entre seus membros.
As autoridades federais acreditam que Furrow poderia estar vinculado à Ordem de Phineas, um grupo armado também relacionado com o movimento Identidade Cristã e envolvido em vários assassinatos e roubos nos últimos anos.
Os que querem pertencer ao grupo devem participar de atos de violência armada contra pessoas não-brancas.
O Centro Legal contra a Pobreza do Sul vinculou Byron de Beckwith, o asassino do líder dos direitos civis Medgar Evers, à Ordem de Phineas e a The Order.
Michael Novick, que rastreia grupos que promovem o ódio na organização Pessoas Contra o Terror Racista, com sede na Califórnia, também vinculou a Ordem de Phineas a Timothy McVeigh, processado por explodir uma bomba num edifício de Oklahoma City em 1995.
Gans disse que o risco que representam os grupos racistas violentos é tão grande que o FBI deveria ter a liberdade de investigar todas as organizações que fazem apologia do ódio racial e incitam à violência.
Atualmente, o FBI só pode investigar as pessoas dentro dos grupos que cometeram crimes, mas não pode supervisionar as publicações ou sites na Internet dos grupos que promovem o ódio.
Nos Estados Unidos, a direita racista envolve milhares de pessoas, mas apenas umas poucas centenas se inclinam à violência, e não seriam facilmente detectáveis em meio à população maior de racistas que respeitam a lei, comentou.
"Não é diferente do que ocorre no resto do mundo, com o aumento dos movimentos étnicos nacionalistas", disse Berlet.
Com a aproximação do novo milênio, o movimento racista norte- americano está particularmente agitado e poderia continuar ativo nos próximos meses", advertiu.

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