Washington, 21 (AE) - O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Robert Rubin, sublinhou hoje o sucesso da estratégia articulada por Washington para enfrentar "a pior crise financeira dos últimos cinquenta anos" afirmando que os EUA e as grandes economias industrializadas montaram "um poderoso programa de reformas" que já começou a produzir resultados mas precisa ser ainda aprofundado.
"Não há varinhas mágicas", disse Rubin num discurso na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade de Johns Hopkins, em Washington, adiantando que os ministros das Finanças das sete maiores potências econômicas usarão a reunião semi-anual do Fundo Monetário Internacional, neste fim de semana, para levar adiante as reformas. O objetivo, disse ele, é evitar a repetição de crises por contágio que afugentaram os investidores das economias emergentes no último ano e meio e derrubaram as economias da ásia, da Rússia e do Brasil.
O secretário do Tesouro indicou que uma das propostas que deve receber luz verde dos ministros é a criação de uma linha de crédito de contingência para imunizar países que estejam executando políticas econômicas sólidas contra ataques especulativos, nos momentos de crise.
O discurso de Rubin foi provavelmente um dos últimos que ele pronunciou como secretário do Tesouro. Há uma forte expectativa em Washington de que ele deixará o governo nas próximas semanas e passará o cargo para o vice-secretário Lawrence Summers, que segundo fontes bem informadas já foi ungido pelo presidente Bill Clinton para assumir o comando do Tesouro, quando Rubin realizar um desejo já antigo de retornar para a vida privada e para Nova York, onde mora sua mulher.
Rubin reiterou que o programa de reformas para a criação de um sistema financeiro internacional não deriva de uma visão romântica sobre as virtudes do mercado, como querem os críticos da estratégia usada contra a crise global. "Nossa abordagem nesse trabalho foi guiada por uma crença fundamental de que um sistema econômico baseado no mercado oferece as melhores perspectivas para criar empregos, estimular a atividade econômica e elevar o padrão de vida nos EUA e ao redor do mundo", afirmou o secretário do Tesouro. "Mas temos uma crença igualmente forte de que a ação é necessária para que os mercados produzam os melhores resultados", acrescentou.
"Há certos objetivos, como por exemplo a educação universal que o mercado, por sua própria natureza, não pode atender; e os mercados, por si próprios, não criam necessariamente as condições necessárias para o seu próprio bom funcionamento, por exemplo, no fornecimento de informação plena e adequada (sobre o risco de bancos em países emergentes)".
O secretário do Tesouro reconheceu também o mérito das críticas sobre o custo social da crise e dos programas de estabilização econômica prescritos pelo FMI. "Para ajudar os mais vulneráveis em épocas de crises, os bancos multilaterais de desenvolvimento devem rearrumar suas prioridades de crédito e tornar disponíveis empréstimos de emergência de desembolso rápido em apoio a programa de rede de segurança social, saúde básica e educação", disse Rubin. Ele sugeriu que o Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento considerem apoiar programas voltados para a criação de empregos. "O FMI deve levar em consideração o impacto das políticas fiscais que prescreve sobre o gasto social e assegurar-se de que os orçamentos para programas sociais essenciais, como educação e saúde, sejam preservados, ou, pelo menos, não sejam cortados de forma desproporcional, mesmo nos períodos em que a consolidação fiscal é necessária". Para tornar o sistema mais resistente às crises, tantos os países industrializados como as economias emergentes precisam melhor policiar os fluxos financeiros e adotar regulamentos para desestimular a especulação excessiva, recomendou Rubin. Os países tomadores de empréstimos devem evitar depender de maneira exagerada de dinheiro volátil de curto prazo. Nesse sentido, controles como os usados pelo Chile "podem ser apropriados", disse ele. Os países ricos, por sua vez, precisam avançar no tratamento dos excessos de alavancagem nas operações de fundo de hedge, ser mais exigentes em relação às operações off-shore e aprimorar a avaliação de risco de crédito.
O secretário do Tesouro disse que a escolha de regime cambial é uma decisão individual de cada país. Mas nenhum regime cambial, fixo ou flutuante, pode permanecer estável a menos que seja sustentado por políticas econômicas sólidas. Segundo Rubin, os EUA " não têm uma visão a priori sobre nossa reação ao conceito de dolarização" . Ele observou que há diferentes maneiras de se dolarizar uma economia e aconselhou os países que queiram tomar esse caminho "a considerar muito cuidadosamente todas as suas consequências" e a consultarem impreterivelmente as autoridades americanas. Mas não devem esperar muito dessas consultas.
O secretário do Tesouro reiterou que "não seria apropriado para as autoridades dos EUA extender ( a esses países) sua rede de supervisão bancária, dar-lhes acesso à janela de redesconto do Federal Reserve, o banco central americano, ou ajustar suas responsabilidades de supervisão bancária ou a orientação da política monetária dos EUA à luz da decisão de outro país de dolarizar".

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