Paris, 02 (AE) - O Parlamento Europeu prepara-se para divulgar um relatório explosivo que poderá envenenar as relações dos Estados Unidos e Inglaterra com os demais países da União Européia. A implicação britânica nessas operações pode mesmo criar um problema político maior com seus parceiros europeus.
Trata-se de um trabalho encomendado ao especialista britânico Duncan Campbell pelo próprio Parlamento Europeu. O trabalho denuncia a existência de um sistema de espionagem industrial e comercial, chamado Echelon, e deverá ser examinado dia 20 pela Comissão de Liberdades Públicas.
Esse sistema, criado em 1947, estava dirigido para os países do Leste Europeu até a queda do Muro de Berlim. Acabou sendo reorientado para a Europa Ocidental a partir de 1989 com o objetivo de interceptar todas as comunicações diplomáticas e comerciais estabelecidas pelos países da Europa, incluindo aquelas via Internet.
Como exemplos, o especialista do Parlamento Europeu explica como o grupo francês Thomson-CSF perdeu, em 1994, para o grupo americano Raytheon, o chamado contrato do século, Sivam, o sistema de cobertura e defesa do espaço aéreo da Amazônia, avaliado em US$ 1,5 bilhão. Na época, franceses e americanos chegaram a trocar acusações sobre o pagamento de polpudas comissões a autoridades brasileiras, fazendo deteriorar as relações entre as duas empresas. Só agora, seis anos depois, os dois grupos buscam uma reaproximação, segundo o atual presidente do grupo Thomson, Denis Ranque. O sistema Echelon permitiu também aos Estados Unidos, em 1995, torpedear o fornecimento pela França de aviões Airbus para a Arábia Saudita.
Os alvos principais do Echelon são as comunicações dos diplomatas franceses, cujo nome de código é FRD, e as dos italianos, ITD.
A Agência de Segurança Nacional dos EUA, ASN; a Agência Central de Informações, CIA; e o Departamento de Comércio criaram, a partir de 1993, uma estrutura chamada Office of Executive Suport, encarregada de transmitir às empresas americanas e britânicas dados das atividades comerciais de empresas européias obtidos por meio desse sistema.
Segundo a denúncia, a ASN teria imposto à Microsoft, Lotus e Netscape o enfraquecimento do sistema de criptografia de seus programas dirigidos aos países europeus para facilitar o acesso dos "espiões". Há dois anos, quando surgiram os primeiros rumores sobre o sistema Echelon, o comissário europeu , Martin Bangemann, chegou a afirmar que se tudo ficasse comprovado se constituiria "num ataque intolerável às liberdades individuais, à concorrência e à segurança dos Estados".
O relatório pretende mostrar como o sistema Echelon procura apropriar-se de dados eletrônicos transmitidos pelas empresas comerciais aos diversos postos diplomáticos europeus. O expert europeu afirmou ainda que a empresa suíça Crypto AG, especialista em fornecer programas sofisticados às Forças Armadas de diversos países europeus e embaixadas de dezenas de outros países, e pressionada pelo sistema Echelon, admitiu manipular seu material, permitindo aos americanos ler mensagens e e-mails secretos.
Campbell chegou a dizer que "arranjos importantes" foram impostos por essa agência americana à Microsoft e Netscape para diminuir nos mercados externos o nível de segurança dos motores de pesquisa da Internet.