Curitiba- O julgamento de quatro acusados de envolvimento na morte do estudante Rafael Zanella, em 28 de maio de 1997, que estava marcado para ontem de manhã no Tribunal do Júri, em Curitiba, foi adiado para o dia 12. O adiamento, pela sétima vez, irritou o juiz Ronaldo Sansone Guerra, que desabafou diante dos jurados: ''Todo mundo sabe que no Brasil a Justiça não funciona. Eu tenho vergonha de ser juiz.''
O juiz comunicou a decisão de adiar a sessão após a defesa dos quatro réusapresentaram argumentos nesse sentido. Os advogados de três dos réus - do delegado adjunto do 13 Distrito Policial na época, Maurício Bittencourt Fowler, do investigador Daniel Luís Santiago Cortes e do escrivão Carlos Henrique Dias- , alegaram que eles estão doentes.
O novo defensor de Fowler, que assumiu o caso sexta-feira, também pediu mais prazo para estudar o processo. O quarto réu, o atual delegado-geral adjunto da Polícia Civil, Francisco José Batista Costa, que era delegado titular do 13 DP pode nem ir a julgamento no dia 12. Ele obteve uma liminar junto ao Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná, a qual adia o júri até o julgamento final do habeas corpus pelo TJ.
''É muito comum o réu constituir um advogado que fica doente um um dia antes do julgamento'', completou Guerra, que também afirmou ser contra a troca de advogado do réu na véspera do julgamento. ''Mas é um direito'', emendou. Posteriormente, o juiz justificou sua atitude: ''Há alguma coisa errada na Justiça que é preciso consertar. Eu, como pessoa comprometida com o ideal de Justiça não posso concordar que um caso desses não seja resolvido em dez anos''.
Guerra provavelmente terá que responder junto ao Tribunal do Júri. O advogado Cláudio Dalledone Junior, que defende um dos réus, disse que os advogados vão pedir providências. ''Dessa maneira não pode ficar. Não se pode admitir que um juiz traga a público a descrença na Justiça, que se sente envergonhado de ser juiz. Isso é mais do que suficiente para que o tribunal o tire do cargo'', disse Dalledone. Ele disse que os advogados podem pedir a suspensão do juiz ou recorrer à Corregedoria do TJ.
Elisabetha Zanella, mãe de Rafael, que já enfrentou sete adiamentos no julgamento de outros dois policiais, estava revoltada. ''É uma palhaçada. Os advogados sempre têm uma estratégia, mas as pessoas se cansam. Alguém tem que ter uma atitude para fazer as coisas acontecerem'', afirmou. Ela disse não acreditar que o julgamento aconteça na próxima semana.
Rafael Zanella foi morto durante uma abordagem policial, no bairro Santa Felicidade. Ele estava junto de três amigos e teria sido confundido com um traficante. Os tiros que mataram o estudante teriam sido disparados por Almiro Deni Schmidt, ex-informante da polícia. Ele foi o único condenado por homicídio e está preso. Dois investigadores que estavam com Schmidt na abordagem -Airton Adonski e Reinaldo Siduovski- foram condenados por denúncia caluniosa, fraude processual e tortura. Outros dois denunciados também já foram a júri. Um deles foi absolvido e outro recebeu pena alternativa.

O juiz Ronaldo Sansone Guerra: ‘‘Há alguma coisa errada na Justiça que é preciso consertar. Eu, como pessoa comprometida com o ideal de Justiça não posso concordar que um caso desses não seja resolvido em dez anos’’

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