Eu e o ACM somos diferentes
Mônica Kaseker e Leandro Donatti
Folha - Como o senhor define o Poder na sua vida?
Khury - Isso é complicado. Mas quem dá o poder para a gente são os amigos, os correligionários, o mandato. É preciso saber exercê-lo com competência, dignidade e sem medo. Como dizia Juscelino Kubitschek: Deus me poupou o sentimento do medo. E isso eu faço com frequência. Não tenho medo.
Folha - Dizem que o senhor chega às vezes mandar mais que os governadores.
Khury - É uma lenda. Eu apenas participo. Faço questão de participar porque tenho representação popular. Minha participação é sincera, falo a verdade na cara dos governadores e tenho sempre acertado nas minhas previsões.
Folha - Qual foi o governador mais fácil de se lidar?
Khury - Em geral, eu sempre me dei bem com os governadores de Estado. Mesmo quando eu militava na oposição. O (Moysés) Lupion foi o mais difícil.
Folha - E o ex-governador Roberto Requião?
Khury - Só o entrevero inicial da eleição da mesa executiva. O Requião não me queria nem como quarto secretário, mas acabei ganhando a eleição do Caíto Quintana. O Requião é um político maduro. Como eu tenho um estilo político franco, mantenho sempre boas relações.
Folha - Tem algum que se destacou?
Khury - Cada um no seu estilo. O (José) Richa, o Requião, o Álvaro (Dias). Não se pode falar de um ou outro. O Jaime (Lerner) está fazendo uma revolução trazendo novas fábricas, industrializando o Paraná.
Folha - O senhor já teve vontade de ser governador?
Khury - É uma pretensão que nunca tive. Sou do Legislativo. Quando fui cassado em 69, haveria uma eleição e eu já estava aceitando a idéia de me candidatar. No relatório do SNI eles escreveram: Se não for cassado, vai ser governador.
Folha - A ambição morreu?
Khury - Assumi o governo cinco ou seis vezes, e uma vez o chefe da Casa Civil, que era o Caíto Quintana, me trouxe documentos para assinar. Um deles era de demissão de servidores. No outro dia, fui para a Boca Maldita e encontrei com um amigo de 40 anos atrás e perguntei: Tudo bem? Ele me respondeu: Tudo, se não fosse você ter me demitido ontem. Isso pra mim foi o fim.
Folha - O senhor é visto como uma versão paranaense do senador Antonio Carlos Magalhães, o ACM.
Khury - Ou ele, como minha versão nordestina (risos). Eu respeito e gosto do estilo do Antonio Carlos Magalhães. Mas o meu estilo é diferente. Eu não sou um coronel. Não estou criticando o ACM, acho que ele é um grande condutor. Mas aqui no Sul a política é diferente, tem mais critério e é mais conversada. É como uma roda de chimarrão entre amigos. Porque nós somos a região mais politizada.
Folha - Como assim?
Khury - Aqui é diferente. Faço questão de ressaltar que sou absolutamente sincero. Com a oposição e com o governo. Por isso mereço também a confiança da oposição. Quando eles me procuram para questionar algo, eu analiso, procuro negociar no bom sentido. Negociar é uma arte. Sou descendente de fenícios e procuro ser leal. Eu não persigo ninguém, não cobro nada de ninguém. Resolvo tudo com conversa e amizade.
Folha - Nas eleições passadas, a sua média de votos era menor. Nesse ano passou de 100 mil votos. O que o senhor fez de diferente?
Khury - Pela primeira vez resolvi fazer campanha. Percorri alguns municípios com helicóptero. Em outros não, porque eram a base de outros deputados e eu não quis invadir. Acho até que o povo não ia nem me ver, mas sim só o helicóptero. (Risos).
Folha - Na sua terra natal, União da Vitória, como foi a votação?
Khury - Tive mil votos. Me elegi lá só uma vez como vereador. O eleitorado do município ainda não me compreendeu.
Folha - Por que o senhor resolveu fazer campanha agora? Teve medo de perder a reeleição?
Khury - Não. Dessa vez recebi convites para viajar. Até hoje, só perdi uma eleição: a primeira para deputado. Pensei que a minha densidade eleitoral era boa, mas não me elegi por 90 votos.
Folha - O senhor foi um dos deputados que mais criaram municípios. As novas cidades engordaram sua votação?
Khury - Fui o mais votado em alguns municípios como Doutor Ulisses e Carambeí, mas nos grandes, como Umuarama e Cianorte, que já têm lideranças próprias, não tive boa votação. A votação é boa na primeira eleição, depois os municípios criam suas lideranças próprias.
Folha - A sua votação não foi uniforme. Na Região Metropolitana de Curitiba, por exemplo, em Campo Largo o senhor fez 4 mil votos, enquanto que em Pinhais, 300.
Khury - Campo Largo tem lideranças próprias, é um município antigo e já elegeu deputado de lá. Em Pinhais foi a segunda eleição. Talvez na próxima já seja mais difícil fazer votos. Depois da terceira eleição geralmente os municípios se desgarram. Pinhais tem 52 mil eleitores e as lideranças ainda não são fortes.
Folha - O senhor disse que não fez campanha em certos municípios para não invadir a área de outros deputados. Isso mostra um pouco da relação que o senhor tem com eles. O senhor se coloca como uma espécie de tutor?
Khury - Tutor talvez não seja a expressão. Eles são meus amigos e confiam em mim. Esse é o meu segredo. Sempre procurei respeitar os meus amigos que são candidatos porque minha pretensão nunca foi fazer concurso de votos.
Folha - O que o senhor exige de um aliado?
Khury - Nada. Eu conquisto o aliado. Pela sinceridade, pela demonstração de solidariedade nos momentos difíceis, e sei dar. É muito importante saber dar.
Folha - Mas os deputados morrem de medo do senhor.
Khury - Não é medo, é amizade. Se eu tenho que fazer um favor, não fico valorizando esse favor. E quando não posso fazer, digo que não posso. Aprendi a dizer sim e a dizer não. Por isso, eles confiam em mim.
Folha - O senhor pensa em preparar um sucessor?
Khury - Eu não pensei porque isso a gente não cria. É como a vocação de ser padre. Político também nasce com vocação, e eu nasci. Sempre fui líder, desde criança.
Folha - O senhor acha que há políticos que possam substitui-lo? O que pode se chamar de Era Aníbal não está com os dias contados?
Khury - Eu procuro estimular novas lideranças. Tem muita gente nova. Eu não sei, não quero citar nomes. Mas tem muita gente nova crescendo, a experiência vale muito. Eu me aproveito muito da experiência porque a história se repete. Nada se inova. Eu analiso e me aproveito da experiência.
Folha - Como o senhor avaliou a diferença de votos entre o senador Requião e o governador Lerner, nas eleições de 4 de outubro?
Khury - A gente projetava uma vitória maior, mas ganhamos por 280 mil votos. Vencemos nas principais cidades: Curitiba, Londrina. O nosso adversário fez uma campanha admirável. O Requião usou mais de 100% do seu direito de ser oposição, enquanto nós primariamente não gozamos do governo nem 10%. Assim mesmo, é difícil vencer o Lerner enquanto ele tiver maioria do eleitorado na região de Curitiba. É muito difícil.
Folha - O senhor é a favor da união de Lerner e de Álvaro Dias em 2002?
Khury - Ambos os partidos (PFL de Lerner e PSDB de Álvaro) apóiam o presidente. A união é necessária para vencer a crise. Vamos supor que o presidente queira o Álvaro como ministro. O Lerner vai vetá-lo? Vai predominar a autofagia paranaense? Não só o governador, como todos os políticos daqui devem apoiar a decisão do presidente de nomear um paranaense, seja o Álvaro Dias, seja o Euclides Scalco, ou qualquer outro. Nós demos talvez a mais expressiva vitória ao presidente Fernando Henrique.
Folha - Nesse governo o senhor registrou algumas derrotas. Uma delas foi a retirada do ex-governador Paulo Pimentel (PFL) da função de vice. Como o senhor enfrentou o episódio?
Khury - Eu entendo que se o Paulo fosse vice-governador não haveria prejuízo nenhum para a candidatura de Lerner. (Entra Dona Niva avisando que o governador esperava pelo deputado no Palácio Iguaçu para apresentar o plano econômico do Paraná). A Emília reforçou a candidatura do Jaime, mas isso ia acontecer com o Paulo também. A campanha poderia ter sido até mais aguerrida.
Folha - O senhor não ficou chateado?
Khury - Não. Eu sou político. E faço uso de uma técnica militar: se você não pode vencer um obstáculo pela frente, vá por outro lado. Napoleão perdeu a guerra porque se meteu em Waterloo, onde tinha sido aconselhado a não se meter. Eu manobro. Tenho capacidade de manobra, entendo a decisão do governador. (Toca mais uma vez o telefone e entra Dona Niva dizendo que, dessa vez, era o secretário da Fazenda Giovani Gionédis quem estava ao telefone pedindo a presença do deputado para uma reunião no Palácio).
Folha - Neste ano eleitoral, a Assembléia foi lenta, com uma pauta minguada. A falta de quórum é frequente e há um desinteresse dos deputados na hora de votar. Como o senhor avalia o desempenho do Legislativo?
Khury - Quero afirmar com absoluta certeza que esta legislatura é a que teve maior frequência de todas. Nosso processo de votação é muito rápido. O governo não pode se queixar do trabalho. A Assembléia, às vezes, é tolerante porque o regime democrático pede isso. No Paraná, temos ajudado e colaborado com o governo. Mesmo no período eleitoral, demos tudo o que o governo pediu. Nenhum governo, durante o tempo em que fui deputado, pôde se queixar da Assembléia. Somos um poder de vidro.
Folha - Mas e a apatia?
Khury - Essa apatia, apatia aparente que a gente vê, é porque as matérias já transitaram nas comissões. Os deputados sabem sim o que estão votando. É claro que tem alguns que não acompanham, mas a maioria sim. Confesso que tenho orgulho disso. Até o nosso sempre vigilante opositor, que é o Rosinha (Florisvaldo Fier, do PT), também ajuda. Ter oposição é salutar. Ninguém faz nada sem conversar. Essa é uma arte que eu exerço.
Folha - Por que o senhor resolveu ressuscitar a idéia da Caixa Econômica Estadual?
Khury - Acho importante para o Estado. Não é tarefa fácil porque o governo federal não quer que os Estados tenham instituições financeiras. A Caixa pode prestar serviços ao Paraná, principalmente aos funcionários e aos pequenos, porque ela vai captar poupança.
Folha - Os funcionários do Banestado poderiam ser reaproveitados?
Khury - Não há dúvida que uma grande parte poderia. Eles já têm formação e são funcionários do Estado. É preciso ter boa vontade. A Caixa Econômica é mais uma cooperativa, onde o funcionário empresta dinheiro a juros baixos.
Folha - É por isso que o senhor defende as anistias?
Khury - Sou totalmente favorável. Há uma espécie de conotação errada. Não se perdoa imposto, mas sim as multas. É uma oportunidade do inadimplente de se recuperar. É claro que também tem malandros, mas só uma minoria.Foto de Mauro FrassonSegredoAníbal: Tem que ter sinceridade. Aprendi a dizer sim e não; por isso as pessoas confiam em mimIndo para o nono mandato de deputado, presidente da Assembléia diz que não é coronel e que as pessoas não têm medo dele: É amizade





