Cerca de 16% dos motoristas de ônibus interestaduais do país assumiram que dormem no volante. Quando perguntados se algum colega já dormiu enquanto dirigia, o número sobre para 58%. Esse é o resultado de um estudo com 400 motoristas de todo o Brasil realizado pelo Departamento de Psicobiologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
‘‘Muitas vezes, os motoristas levam mais de 30 pessoas nos ônibus. Isso as coloca em risco’’, disse Marco Túlio de Mello, responsável pela pesquisa. Os motoristas geralmente têm um horário de trabalho muito variado. Para cada oito horas trabalhadas, o motorista tem um descanso de 12 horas. ‘‘Ele nunca dorme e acorda no mesmo horário, o que dificulta o sono. O motorista nunca dorme bem.’’
Mello observou também que os motoristas casados voltavam mais cansados das folgas. Dados estatísticos mundiais revelam que há uma maior incidência de acidentes quando os motoristas voltam das folgas ou de férias. ‘‘O tempo livre acaba sendo dedicado à família. Eles não descansam.’’ O estudo observou também que os motoristas apresentaram uma alta incidência de apnéia. Cerca de 20% tinham o problema. Nos EUA, a incidência é de 2% a 4%.
A apnéia é caracterizada por paradas respiratórias durante a noite. Como sistema de defesa, o corpo provoca um microdespertar, a pessoa sai do sono mais profundo e acaba não se recuperando do cansaço físico e mental. O sono é dividido em fases. Nas fases 1 e 2, não há uma recuperação do cansaço. Ela começa somente nas fases 3 e 4, quando o corpo tem uma recuperação física. Para reestabelecer as funções cognitivas, é preciso chegar à fase REM (sigla em inglês para movimento rápido dos olhos).
‘‘Se o motorista não tiver um bom sono REM, ele não se recupera o suficiente para enfrentar o dia seguinte’’, disse Mello. A consequência das noites mal dormidas são o cansaço físico (observado em 59,8%) e mental (45,4%). Cerca de 20,6% apresentaram também irritabilidade. ‘‘Para melhorar o estado dos motoristas, é preciso criar uma escala de trabalho mais humana’’, disse Mello. O estudo observou que a maior parte dos motoristas tinham baixos graus de escolaridade. ‘‘Por medo de serem despedidos e não conseguirem arrumar outro trabalho, eles não reclamam dos horários.’’ Um dos parâmetros que podem ser adotados é a separação dos turnos de acordo com o período do dia que o motorista trabalha melhor.
Segundo ele, a melhor administração das escalas de horário reduz acidentes. ‘‘No entanto, os administradores pensam apenas no lucro imediato.’’ Para entender melhor o estresse e as suas consequências no sono, Mello está internando 380 motoristas de uma empresa, cujo nome ele não divulgou. Ele está avaliando formas de facilitar o sono nas pessoas e evitar o cansaço excessivo. Uma das formas é por meio do exercício físico. Quando o corpo está com a temperatura mais baixa, há um aumento da melatonina, substância que inibe o sono. ‘‘Quando a pessoa se exercita, ela aumenta a temperatura corpórea’’, disse.
Uma outra forma de inibir o sono é a exposição à luz ou ao sol, que também aumenta a temperatura corpórea. A esse tratamento dá-se o nome de fototerapia. ‘‘Mas o fundamental é mudar as escalas de trabalho’’, disse Mello. ‘‘A culpa não é do motorista.’’

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