A sociedade brasileira está conseguindo conter o avanço da epidemia de Aids. Essa é outra conclusão do estudo dos economistas Samuel Kilsztajn e Marcelo Bozzini da Camara. Ao analisar as séries estatísticas da epidemia, eles observaram que, no Estado de São Paulo, a pior fase de contágio da doença já passou. Ela teria ocorrido no período de 1985 a 1990, quando foram registradas as taxas mais altas de infecção pelo HIV, o agente provocador da doença. Uma das provas disso seria a redução, apontada agora pelas estatísticas, no número de mortes causadas pela Aids.
A associação entre o declínio no número de mortes e a queda nas taxas de infecção é uma das características originais do estudo. Desde 1996, quando as estatísticas começaram a indicar que havia menos gente morrendo por causa da doença, o fato tem sido atribuído apenas ao uso das novas drogas utilizadas para inibir a ação do vírus no organismo. Embora seja inegável a eficácia dos remédios, que garantem uma sobrevida maior aos doentes, há um outro fator de influência, segundo os estudiosos: a reação da sociedade.
As séries estatísticas são claras: à medida que caía o número de infecções, o índice de mortalidade, 10 anos depois, também declinava. Entre homossexuais, as taxas de registro de novos casos estão diminuindo desde 1993. Isso indica que eles começaram a tomar medidas preventivas imediatamente após a primeira onda da epidemia, na qual foram os mais atingidos.
A segunda onda atingiu principalmente os usuários de drogas injetáveis e a terceira, os heterossexuais, os últimos a reagir à epidemia com medidas preventivas. A chamada feminilização da epidemia, tão destacada nos últimos anos é, na verdade, a parte mais visível da heterossexualização, segundo Kilsztajn e Camara.
Riscos De maneira alentadora, os dois pesquisadores concluem que o avanço da epidemia pode perder força daqui para a frente. Mas fazem um alerta: ela vai recrudescer se houver um relaxamento nas medidas preventivas. ‘‘O risco de aumento nas taxas de infecção é alto’’, diz Kilsztajn.
As preocupações não são infundadas. Nos Estados Unidos, as autoridades da área de vigilância epidemiológica estão preocupadas com o crescimento no número de registros de casos de Aids entre jovens homossexuais.
Há quem acredite que, por não terem vivido a fase mais trágica da epidemia, quando os medicamentos tinham pouca eficácia e os efeitos da Aids eram devastadores, muitos desses jovens estariam abandonando o uso da camisinha.
No conjunto dos países, a situação é ainda mais preocupante: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 50% dos novos casos de Aids são detectados em jovens entre 15 e 24 anos. (A.E.)

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