Estudo revela os medos da juventude
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de agosto de 2005
Beatriz Coelho Silva<br>Agência Estado 
Rio de Janeiro- O jovem brasileiro tem dois medos e duas esperanças. Teme sobrar no mercado de trabalho e morrer precoce e violentamente, mas acredita que o futuro será melhor e que pode contribuir para que isso aconteça. Para ele, a educação e a família são fundamentais, porém, falta confiança nos políticos e nas instituições do governo, que considera fontes de corrupção. Esse é o resultado da pesquisa Retratos da Juventude Brasileira, promovida pelo Instituto de Cidadania, com base nos dados do Censo de 2000.
''As desigualdades de renda, de oportunidades e de região separam os jovens brasileiros mas essa é a primeira geração que tem acesso igual aos meios de comunicação e à informação'', explica a secretária Nacional-Adjunta da Juventude, Regina Novaes, que hoje participa de um debate sobre o tema, no Instituto de Estudos da Religião (Iser). ''O hip hop é um exemplo. Você encontra grupos semelhantes no Rio, no interior do Maranhão ou em Porto Velho. Por isso, pode-se falar numa cultura ou imaginário juvenil.''
A pesquisa foi encomendada ao Instituto de Cidadania pelo governo federal e usou como base dados do Censo 2000, segundo qual existem 34 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos no País. No fim de 2003, 3.501 jovens de 198 municípios em 24 Estados da Federação responderam 160 perguntas sobre escolaridade, anseios, trabalho e sexualidade. ''Duas questões são fortes. Todos se preocupam com o futuro. O jovem que termina a faculdade e o que não completa o ensino fundamental temem não se inserir no mundo produtivo'', conta Regina.
Os números mostram que a insegurança profissional tem fundamento. Apenas 36% dos jovens trabalham. Dos outros, 32% estão desempregados e 24% nunca conseguiram trabalho. ''Na geração de seus pais, a classe média garantia o futuro com a faculdade e o pobre tinha, no mínimo, a profissão dos pais. Essa segurança não existe mais. Até a cultura operária não se reproduz mais porque as indústrias mudaram de perfil e de lugar.''
O medo da morte precoce e violenta é um paradoxo na geração a quem a ciência garantiu vida mais longa e confortável, guardadas as proporções entre as diversas classes. Sem haver uma guerra tradicional, o jovem assiste à morte de seus pares. ''Todos têm um primo, um irmão ou um conhecido que morreram violentamente. É muito perto e impactante'', comenta Regina. ''Isso traz um terceiro medo, o de estar desconectado num mundo conectado. A dificuldade de empregar-se, as migrações que cortam os laços e a diáspora do jovem que tem estudo dão essa sensação.''
Apesar do quadro, os jovens acreditam que o futuro será melhor e que podem contribuir para isso. Por isso, eles valorizam a escola e a família, mesmo quando esta foge do modelo tradicional. ''A escola é o passaporte para o mercado de trabalho. Eles sabem que só estudar não basta, mas que sem estudo nada acontecerá. É uma constante em jovens da classe alta das metrópoles, ou dos pobres que vivem no campo'', comenta Regina. ''Já a família é o lugar do afeto e do compromisso, do qual não abrem mão. Ainda que seja com os pais separados e meio-irmãos, ele fizeram um novo arranjo e se apoiam nessa nova família.''
O governo e suas instituições também foram citados pelos jovens no levantamento. Os partidos políticos e o Legislativo (em todos os níveis) não são confiáveis para mais de 60% dos jovens e 55% deles pensa o mesmo do governo federal. A Justiça é confiável para metade deles e as Forças Armadas estão bem cotadas. Merecem a confiança total de 22% dos jovens e a parcial de 45% deles.


