Quando a epidemia de Aids explodiu no País, em 1985, uma geração inteira de jovens vivia de maneira intensa uma fase de liberação de costumes. Sexo, drogas e rock-n’-roll era mais do que um refrão. Para muitos, era um estilo de viver. Por causa dessa coincidência, cruel, entre a insidiosa infiltração do vírus causador da doença e o espírito de liberação, essa foi a geração mais atingida pela Aids.
De acordo com um estudo recém-concluído, as mortes e infecções causadas pelo HIV, em 20 anos de epidemia, ocorreram entre pessoas que nasceram entre 1955 e 1971. Elas tinham entre 14 e 30 anos quando a doença se disseminou, em 1985. Hoje sua idade varia entre 30 e 45 anos. ‘‘Trata-se da geração que não confiava em ninguém com mais de 30 anos e viveu intensamente o período do chamado amor livre, com práticas heterossexuais e crescente permissividade homossexual’’, observa o economista e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Samuel Kilsztajn.
Com 49 anos, ele é um dos autores do estudo ‘‘Casos Notificados de Aids no Estado de São Paulo – A Geração Vulnerável’’, que será publicado brevemente. O outro autor é o economista Marcelo Bozzini da Camara, também da PUC. Segundo o texto da pesquisa, ‘‘a utilização de narcóticos popularizou-se nesta geração’’. Também foi o período de grande difusão da pílula, com pouquíssima utilização de preservativos entre os jovens.
Não é difícil confirmar o que a pesquisa aponta. Entre as pessoas mais famosas que morreram vítimas da doença estão o cantor e compositor Agenor Miranda Santos, o Cazuza, que nasceu em 1958 e morreu em 1991, com 33 anos. O roqueiro Renato Russo, nascido em 1960, estava entrando na adolescência quando a epidemia explodiu no País. A doença matou-o em 1996, com 36 anos e já consagrado como um dos mais bem-sucedidos artistas da música brasileira dos anos 80 e 90, com 5 milhões de discos vendidos.
Outro famoso nascido em 1960 foi Conrado Segreto, o mais aclamado estilista do Brasil no fim dos anos 80 e início dos 90. Resistiu até 1992, quando tinha 32 anos.
A longa lista ainda inclui o galã Lauro Corona, nascido em 1957. Morreu em 1989, no auge de sua carreira como ator da ‘‘TV Globo’’, depois de ter atuado em ‘‘Dancing Days’’ e ‘‘Vereda Tropical’’. Outra atriz global, Cláudia Magno, de ‘‘Final Feliz’’ e ‘‘O Dono do Mundo’’, morreu com 34 anos, em 1994. Foi vítima de um tipo de pneumonia violenta, comumente associada ao vírus HIV. Dez anos antes, ela havia namorado o modelo e ator Marcelo Ibrahim, que morreu do mesmo mal.
Hippies A geração anterior a essa, que nasceu entre 1945 e 1954 e viveu os anos dourados do pós-guerra, foi a que mais ousou e rompeu limites, segundo os autores da pesquisa. Foi ela quem desencadeou o movimento hippie, os protestos contra a guerra do Vietnã, as barricadas de maio de 68, os grandes avanços do movimento feminista. Mas quem desfrutou mais desses novos caminhos foram os jovens que vieram a seguir, nascidos entre 1955 e 1971.
Para eles, valia mais que nunca o refrão ‘‘qualquer maneira de amor vale amar’’, como cantava Milton Nascimento, citado no texto de Kilsztjan e Camara.
A socióloga Graça Cremon, que estava no quarto ano de faculdade quando a epidemia eclodiu, define essa diferença da seguinte maneira: ‘‘A geração anterior foi a que levantou bandeiras. A minha já estava liberta. Não éramos hippies, depilávamos as pernas, não tínhamos bandeiras.’’

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