Estudo projeta aumento de mortes por câncer ligadas ao tabagismo; governo vai intensificar combate ao fumo
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domingo, 23 de abril de 2000
Por Wilson Tosta 
Rio, 24 (AE) - O crescimento do tabagismo, principalmente entre mulheres, aumentará o número de mortes por câncer no País este ano, segundo o estudo Estimativas da Incidência e Mortalidade de Câncer no Brasil 2000, divulgado hoje, no Instituto Nacional do Câncer (Inca), pelo ministro da Saúde, José Serra. De acordo com o estudo, a doença causará, entre 1º de janeiro e 31 de dezembro, 284.205 novos casos da doença e 113.959 mortes. O câncer de pulmão é a segunda causa de óbitos pela moléstia no sexo feminino - cresceu mais de 80% entre 1980 e 1997 - e em 2000 será a primeira entre quem tem a doença.
Por causa destes números, o governo decidiu endurecer as campanhas de combate ao fumo. "O cigarro é a indústria do sofrimento e da morte", disse Serra. "A possibilidade de um fumante pegar câncer de pulmão é 22 vezes maior que a de um não-fumante", assinala. Segundo a coordenadora de Programas de Prevenção do Inca, Vera Luiza Costa e Silva, se todos os fumantes da população brasileira parassem de fumar, em dez anos haveria uma queda de 90% nos números de câncer no pulmão e de 30% nas estatísticas totais da doença (menos 85.350 casos anuais
em números de hoje). Além do pulmão, o fumo está na origem de casos da moléstia na boca, laringe, faringe, pâncreas, rins, bexiga, colo do útero e esôfago.
De acordo com Vera Lúcia não é correto comparar estimativas de anos diferentes, por isso é difícil projetar o tamanho do aumento. A análise dos números de óbitos registrados entre 1980 e 1997 (últimos fechados) mostra um crescimento global de 30% nos casos da moléstia no País no período. A taxa de mortalidade entre doentes de câncer do pulmão subiu de 8,37 por cada 100 mil habitantes para 11,97/100 mil, para os homens, e de 2,57 para 4,74, para as mulheres. A estimativa para 2000 mostra um aumento para 12,61 e 4,97/100 mil (em números absolutos, 10.290 e 4.332 mortes), respectivamente.
Os números indicam que, em 1980, de cada 100 mil homens, oito, em média, morreram de câncer pulmonar; em 1997, foram quase 12 por 100 mil, aumento de 43,01%. Para as mulheres, o salto foi muito maior no período: 84,43%. "As estimativas para o ano 2000 indicam que, entre os tumores malignos, o câncer de pulmão representa a principal causa de óbitos entre os homens e a segunda mais frequente entre as mulheres", comentam os autores do estudo, no relatório divulgado por Serra.
Mulheres - O crescimento do câncer de pulmão entre as mulheres já ultrapassou, nas causas de morte entre as atingidas pela doença, o de colo do útero, que era o segundo colocado. O primeiro continua a ser o câncer de mama. "A elevação na taxa de mortalidade por câncer de pulmão entre a população do sexo feminino reflete a disseminação do hábito de fumar entre as mulheres a partir da década de 60", diz o diretor-geral do Inca
Jacob Klingerman. "O processo de afirmação feminina passa por copiar hábitos masculinos, inclusive o cigarro", afirmou Serra. Estima-se que o Brasil tem 38 milhões de fumantes.
A reportagem procurou a Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo) para comentar a pesquisa e as declarações. A entidade informou que o único autorizado a falar, o presidente da Abifumo, Nestor Jost, não poderia dar entrevista
por estar viajando. Outros casos - O câncer é a terceira maior causa de mortes no País (11,84%) e a segunda doença que mais mata (27,63%). Em primeiro lugar estão as doenças cardiovasculares. O crescimento no número de casos é ligado ao envelhecimento da população, associado à urbanização e às ações de promoção e recuperação da saúde, que evitam a morte prematura por doenças infecto-contagiosas.
O principal tipo de câncer que acometerá a população brasileira em 2000, segundo o estudo, será o de pele não melanoma (42.305 casos novos), seguido dos de mama (28.340), de pulmão (20.082), estômago (19.860) e do colo do útero (17.251). Em número de mortes, a ordem muda: depois dos 14.522 óbitos por câncer pulmonar, virão 10.700 pela doença no estômago, mama (8.245), próstata (6.850) e cólon/reto (6.725).
Curiosamente, a análise dos casos de câncer de estômago ocorridos de 1980 a 1997 mostra diminuição no número de mortes. A queda foi mais acentuada entre os homens, de 9,89/100 mil para 8,82/100 mil (menos 12,13%) . Entre as mulheres, a diminuição foi menor: de 4,87 para 4,49, menos 8,46%. A estimativa para 2000 é a de que haja nova queda, e as taxas sejam, respectivamente de 8,66 e 4,24/100 mil.
"O câncer de estômago representa uma importante causa de óbito no Brasil e seu decréscimo é consistente com o ocorrido em vários países, tanto em relação à mortalidade quanto à incidência", diz o estudo. "Esse declínio possivelmente reflete o aumento do consumo de frutas e vegetais frescos, que protegem o organismo, e também a queda no consumo de sal, alimentos defumados e enlatados, sabidamente associados a esse tipo de câncer". Vacina - Antes do lançamento do estudo, Serra participou da abertura da campanha nacional de vacinação de pessoas com mais de 60 anos contra gripe, pneumonia, difteria e tétano. A campanha visa à imunização de 9 milhões de pessoas e foi aberta no Parque Irmãos Bernardelli, no Lido, em Copacabana. O ministro aplicou a vacina no prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde (PFL).


