Estudo pode revolucionar tratamento de hipertensão
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de janeiro de 2000
Por Simone Biehler Mateos 
São Paulo, 14 (AE) - Para alguns hipertensos, o aumento do consumo de sal pode ser até benéfico. Ao menos isso é o que sugerem algumas conclusões preliminares de um estudo com ratos que está sendo concluído por pesquisadores do Instituto do Coração (Incor) de São Paulo. O trabalho, que investiga as bases genéticas da hipertensão, poderá revolucionar as possibilidades de diagnóstico precoce, prevenção e tratamento da doença.
Não que alguém esteja pensando em prescrever sal a hipertensos. Ao menos não no momento. Mas, em ratos, os cientistas já identificaram uma alteração genética relacionada à hipertensão, na qual o consumo de sal provoca a redução da pressão arterial.
"Sabemos que a doença está associada a vários genes e a fatores como consumo de sal, álcool ou nível de estresse, mas não sabemos por que alguns hipertensos reagem bem à redução do sal - ou a determinadas drogas -, enquanto, para outros, a redução é inócua e certos medicamentos também", explica José Eduardo Krieger, cardiologista e pesquisador do projeto.
Prevenção - O objetivo da pesquisa é descobrir quais alterações genéticas estão associadas a cada um dos diversos perfis da doença. Com isso, os cientistas esperam desvendar os mecanismos que desencadeiam a hipertensão em cada caso, o que permitiria não só prescrever drogas com muito mais eficácia, mas até prever e prevenir a doença antes das suas primeiras manifestações.
Uma pessoa com muitos casos da doença na família, por exemplo, poderia ser analisada geneticamente antes de a doença se manifestar e a prevenção poderia ser planejada de acordo com o perfil genético da sua hipertensão. O impacto dessa prática na saúde pública mundial seria imenso. Afinal, estima-se que um em cada cinco habitantes do planeta sofre de hipertensão e, em cerca de 85% a 90% dos casos, a doença está ligada a fatores genéticos. Por outro lado, a hipertensão é o principal fator de risco para doenças cardiovasculares, que são a maior causa de morte no mundo hoje.
Eficácia - "O problema é que, quando a hipertensão apresenta seus primeiros sintomas, geralmente, os danos já estão instalados, o que significa um alto risco de incapacidade grave ou morte", adverte Krieger, lembrando que a hipertensão está relacionada ao enfarte, derrame e insuficiência renal. Além de ampliar a prevenção, os cientistas acreditam que conhecer o perfil genético da doença poderá aumentar muito a eficácia do tratamento, porque o médico saberia qual a droga exata para cada caso, e reduzir seus efeitos colaterais.
"As terapias, hoje, atacam em várias direções porque nunca sabemos o que será mais eficaz em cada caso", diz Krieger. Isso vale tanto para as diversas drogas disponíveis para o tratamento da hipertensão como para indicações como redução de sal, nível de estresse, álcool, fumo, peso, aumento do exercício, entre outros. "Mas o que é eficaz em alguns casos não é em outros", diz Krieger.
O maior problema para o tratamento da hipertensão é que as "direções" a atacar são inúmeras, uma vez que a regulagem da pressão depende de diversos e complexos sistemas do organismo: fatores físicos, neuromorais, hormonais, etc.
Sabe-se que estresse, fumo, obesidade e consumo elevado de sal e álcool são fatores de risco para o desenvolvimento da hipertensão. Até hoje, porém, os médicos não sabem por que a pressão arterial de certos pacientes pode ser normalizada apenas com a redução do sal, enquanto a de outros permanece inalterada com essa mudança, podendo, no entanto, reagir bem à diminuição do número de cigarros ou do nível de estresse. Da mesma maneira, é impossível prever como cada paciente reagirá às várias drogas disponíveis hoje para o tratamento da doença.
A explicação, acreditam os cientistas, deve estar nos diferentes genes envolvidos na determinação da hipertensão de cada pessoa. Considerada uma doença complexa, ela depende de alterações simultâneas em genes diferentes. "Trabalhamos para saber qual perfil genético corresponde a cada perfil de hipertensão", afirma Krieger.


