São Paulo, 25 (AE) - Algumas espécies do mosquito anófeles, o principal agente transmissor da malária, estão apresentando mudanças de comportamento. De acordo com cientistas que estudam o fenômeno, com essas alterações eles conseguem escapar mais facilmente dos efeitos dos inseticidas utilizados nas campanhas de combate à doença. Um estudo realizado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) mostrou que, ao contrário do que ocorria nas últimas décadas, a maioria dos mosquitos encontrados naquele Estado tornou-se capaz de invadir as casas próximas à vegetação e retornar para seu hábitat natural após picar as vítimas, sem entrar em contato com as moradias. Com isso, evitam os inseticidas de ação residual, colocados nas paredes.
A "artimanha" foi desenvolvida pelas duas espécies mais comuns de anófeles no Maranhão, e pode ser uma das causas do aumento de quase 90% nos casos de malária verificado no Estado em 1999. De acordo com dados preliminares da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o ano passado assinalou o maior número de registros da doença em toda a década: foram 57.194 notificações, quase o dobro das de 1998, que foram 29.186. Os mosquitos "inteligentes" do Maranhão foram identificados pelo biólogo José Manuel Macário Rebêlo, do Núcleo de Patologia Tropical e Medicina Social da UFMA, autor de estudos sobre as espécies de anófeles em três regiões do Estado.
Os últimos resultados de sua pesquisa acabam de ser publicados na Revista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. "A obrigação de conviver com o homem e o prolongado uso dos inseticidas de ação residual, como o DDT, desde os anos 50, fizeram com que as duas espécies do mosquito mais comuns no Estado, o Anopheles aquasalis e o Anopheles darling, desenvolvessem novos hábitos", disse Rebêlo ao Estado. Proximidade - Entre 96 e 97, o biólogo e sua equipe capturaram, com a ajuda dos habitantes do município de Raposa, na Ilha de São Luís, 1.407 espécimes de anófeles dentro das moradias e em um perímetro de 30 metros. Cerca de 75% dos mosquitos estavam no interior das casas - o que mostra o aumento da proximidade com o homem -, mas nenhum foi encontrado pousado nas paredes. "Após picar a vítima, a fêmea do mosquito busca um local tranquilo para repousar e procriar", explica Rebêlo. "O natural seria que ela ficasse nas paredes próximas, como demonstravam os trabalhos realizados até a década passada, mas isso não acontece mais". Rebêlo também estudou os hábitos das espécies anofelinas na região da Amazônia maranhense e no litoral do Estado.
O Anopheles aquasalis é encontrado no litoral e na Ilha de São Luís, onde estão a capital e mais três municípios, numa área de 905 quilômetros quadrados e com mais de 1 milhão de moradores. O Anopheles darling é mais comum nas áreas amazônicas
onde o desmatamento ocorre em maior escala. Diante dessa nossa nova realidade, a Coordenação de Controle de Doenças Transmitidas por Vetores (CCDTV) da Funasa está começando a utilizar uma nova estratégia de combate aos agentes transmissores da malária. Batizada de Controle Seletivo dos Vetores, a ação consiste em realizar estudos prévios sobre os agentes transmissores nas áreas de risco, antes de iniciar o ataque ao moquisto.
"A partir dos resultados, escolhemos qual a melhor maneira de agir naquele local", explica o coordenador da instituição, Fabiano Pimenta Junior.

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