O desenvolvimento da esquizofrenia poderá ser evitado em um futuro próximo. Essa é a principal conclusão de um estudo que vem sendo realizado há três anos por pesquisadores das universidades de Yale e de Nova York, sob a coordenação do psiquiatra brasileiro Jorge Alberto Costa e Silva. Para confirmar os promissores resultados, terá início em março do próximo ano uma pesquisa mundial, que contará com a participação de 25 países, entre eles o Brasil.
Professor de Psiquiatria e diretor do Centro Internacional de Saúde Mental e Pesquisa da Universidade de Nova York, Costa e Silva estará no Brasil em outubro para participar do XVIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria, durante o qual apresentará as principais conclusões de seu estudo, denominado Projeto de Prevenção de Esquizofrenia. Segundo o médico, é possível determinar o momento em que a esquizofrenia começa a se desenvolver e interromper esse processo.
A esquizofrenia é considerada pelos médicos a mais terrível das doenças mentais. Trata-se de um transtorno cerebral de ordem genética que faz com que a pessoa rompa com o mundo real, vivendo de acordo com uma realidade própria, criada por ela. ‘‘A pessoa vê as coisas corretamente, mas as interpreta de forma delirante’’, explicou Jorge Alberto Costa e Silva. Atualmente, os principais sintomas da esquizofrenia são controlados com medicamentos, mas não há cura conhecida para a doença. ‘‘Com os remédios, eu diria que se consegue uma vida 60% normal, mas nunca totalmente’’, disse o psiquiatra.
O grupo coordenado pelo médico brasileiro começou sua pesquisa com base no estudo de imagens cerebrais funcionais - imagens geradas por aparelhos ultramodernos de ressonância magnética que mostram o cérebro em funcionamento. Os pesquisadores descobriram que, do início da adolescência até o fim da juventude, os cérebros dos seres humanos destroem as ligações entre as células nervosas - criadas na infância - e começam a construir novos circuitos cerebrais para a vida adulta. ‘‘A esquizofrenia impede o cérebro de criar essas novas ligações de forma adequada’’, explicou o médico.
Os principais sintomas da doença, no entanto, só aparecem cerca de cinco anos depois de iniciado esse processo. ‘‘E aí já é tarde para tentar qualquer intervenção’’, sentenciou o psiquiatra. Os pesquisadores concluíram, no entanto, que se conseguissem determinar o momento em que o processo começa, poderiam tentar algum tipo de intervenção. Como a predisposição à esquizofrenia é hereditária, eles decidiram estudar 50 adolescentes sadios que tivessem pais ou irmãos esquizofrênicos - casos em que a chance de desenvolver a doença é dez vezes maior.
‘‘Descobrimos que existem alguns sintomas que aparecem cedo, mas que, normalmente, passam despercebidos ou são considerados problemas normais da adolescência’’, disse o psiquiatra. ‘‘Comportamentos como não querer ir à escola ou não querer falar com amigos.’’ Os pesquisadores dividiram então os adolescentes em dois grupos: para vinte e cinco jovens foi ministrado um remédio usado no tratamento da esquizofrenia e para os demais uma substância inócua. Entre os que receberam o medicamento, nenhum desenvolveu a doença. Mas a esquizofrenia se desenvolveu em oito adolescentes do outro grupo.
A pesquisa foi repetida com outros quarenta jovens e o resultado obtido foi o mesmo. ‘‘Tudo leva a crer que, se conseguirmos impedir o desenvolvimento da esquizofrenia nesse momento, ela não se manifestará nunca mais’’, afirmou Costa e Silva. ‘‘E se conseguirmos confirmar isso, estaremos mudando totalmente a história dessa dramática doença.’’
Para tanto, foi criado um comitê para coordenar um estudo internacional, envolvendo 1.500 adolescentes em 25 países. ‘‘Queremos saber se os sintomas preliminares são os mesmos nas diferentes culturas, se a evolução do processo é a mesma e, claro, se a resposta terapêutica será idêntica’’, explicou o psiquiatra, que preside o comitê. Em cada país serão selecionados cerca de 60 jovens que tenham pais ou irmãos esquizofrênicos. Eles serão acompanhados durante cinco anos. O projeto está orçado em US$ 50 milhões e será custeado por uma parceria entre o governo americano e a iniciativa privada.

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