Estudo mostra que crise não afetou confiança das multis na AL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de maio de 1999
Por Paulo Sotero (assinatura obrigatória) 
Washington, 05 (AE) - A crise financeira brasileira e seus efeitos negativos na Argentina e no resto da América Latina não abalaram a confiança das grandes empresas multinacionais dos Estados Unidos instaladas na região. Para 36% delas, o potencial de crescimento do mercado continua ser a principal razão para continuar a investir, seguida pela estabilidade política e/ou econômica (24%), a qualidade da mão de obra (12%) e os recursos naturais (11%).
Essa é uma das conclusões do primeiro levantamento sobre o clima para investimentos na América Latina e Caribe publicado desde a desvalorização do real e a confirmação de que as economias do Brasil e da Argentina sofreram uma contração em 1999. O estudo, feito pela Associação das Câmara de Comércio Americanas na América Latina (AACCLA) e pela PricewaterhouseCoooper LLP, ouviu executivos de mais de duzentas grandes empresas e conglomerados representativos da maior parte dos investimentos americanos de longo prazo.
Comprovando que a crise não alterou os planos dessas empresas de continuar a apostar na região, 55% dos entrevistados disseram que suas empresas têm planos para fazer investimentos e reinvestimentos significativos em suas operações nos próximos dois anos, 45% procuram sócios para joint-ventures e 30% pretendem comprar companhias já em operação. Outros 24% disseram que estão interessados em investir no capital de empresas já estabelecidas e apenas 14% falaram em desinvestimento.
"Esse é um claro sinal de que os investidores estão otimistas sobre o futuro da América Latina e do Caribe", disse Charles G. Preble, presidente da Southern Peru Copper Corporation e presidente da AACCLA.
"Embora problemas de curto prazo precisem ser resolvidos, esse levantamento mostra que o empresariado continua animado com potencial de crescimento do mercado da região". Eduardo Pupo, do Centro de Negócios Latino-americano da PricewaterhouseCooper, acrescentou que, à medida em que o mercado vá se acalmando, "investidores experientes" estarão preparados para agir rapidamente. "Investidores estratégicos, que trabalham com visão de longo prazo, não pararam de analisar oportunidades", acrescentou Pupo. Segundo ele, há, no momento, cerca US$ 3,5 bilhões em investimentos de longo prazo na América Latina já programados e outros bilhões estão a caminho, sob diferentes formas de aplicação.
John Mein, que preside a Câmara Americana de Comércio em São Paulo, disse que o potencial de crescimento do Brasil aumentou após a mudança do regime cambial e que isso, e não apenas o tamanho do mercado brasileiro, tornará o País ainda mais atraente para o investidor estrangeiro nos próximos anos. "Com o fim da âncora cambial, a economia brasileira passa a poder crescer e é isso que atrairá mais investimentos".
Um dos objetivos do levantamento é aumentar o apoio político nos EUA para a negociação de novos acordos comerciais, onde um déficit comercial projetado de US$ 300 bilhões para 1999, em parte em consequência da crise financeira iniciada na ásia em 1997 e uma eleição presidencial à vista são o pano de fundo de investidas protecionistas. "Atrás dos investimentos vem a importação de produtos americanos", disse Preble.
De acordo com o estudo, três em cada quatro executivos entrevistados disseram que os acordos de liberalização comercial já em funcionamento, como o Nafta (entre EUA, Canadá e México) e o Mercosul têm tido impacto positivo sobre seus negócios. Quanto ao projeto de criação da área de Livre Comércio das Américas, a Alca, que tem feito progressos em discussões técnicas sobre facilitação de negócios, mas perdeu o ímpeto político, John Mein disse que as empresas estão à frente dos governos. "A integração está sendo praticada, seja na infra-estrutura, seja nos produtos", disse ele. "A integração política está menos visível, mas o nosso estudo refuta a idéia de que a integração está parada".
Robert Filek, da PricewaterhouseCooper, reforçou o argumento chamando atenção para o fato de que apesar das pressões em contrário, criadas pela crise, os governos da América Latina resistiram até agora à imposição de novas barreiras ao comércio e estão negociando soluções sem recorrer ao protecionismo.


