Rio, 04 (AE) - O Boletim Conjuntural do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) referente a janeiro mostra como pioraram as perspectivas para os brasileiros este ano: de acordo com as projeções do órgão, vinculado à Secretaria de Planejamento, o Produto Interno Bruto (PIB) deverá despencar 3 9% no acumulado do primeiro semestre. Esta é uma revisão negativa da última estimativa do IPEA, feita em dezembro, quando previa uma retração na economia de 2,9%. No primeiro trimestre, o PIB deverá acumular recuo de 3,1%. A recessão, portanto, chegou mesmo e em 99 o PIB cairá, segundo o Grupo de Conjuntura do IPEA, entre 2% e 3%.
"São números piores do que os previstos no final do ano passado, mas este é apenas um custo temporário para transitarmos rumo ao crescimento sustentado", afirma o coordenador do Grupo, Paulo Levy. Pelas projeções do órgão, somente o PIB da agropecuária exibirá crescimento na primeira parte do ano. Sua expansão se situará em 2,1% de janeiro a março e em 3,2% de janeiro a junho.
Para o PIB industrial (que leva em conta o valor da produção e não a produção física) o quadro é péssimo, com retração estimada em 6,6% no primeiro trimestre e em 6,8% no primeiro semestre. Serviços também estarão com desempenho negativo: -1,8% nos três primeiros meses de 99 e -3,2% nos primeiros seis meses.
Fábricas - No caso da produção física da indústria de transformação, o IPEA prevê queda de 3,4% em 1998 quando os números do ano forem fechados definitivamente. Este movimento descendente deverá se acentuar e em março estará com redução acumulada de 5,4%. No primeiro semestre, o desempenho da indústria de transformação deverá ser negativo em 5,5%.
Para a indústria geral, os números continuam ruins, mas nem tanto quanto no caso da indústria de transformação: -2,2% em 98; -3,9% no primeiro trimestre; e -4,2% no primeiro semestre. Estes resultados serão devidos, conforme o IPEA, ao excelente comportamento da indústria extrativa-mineral - principalmente petróleo - para a qual se espera expansão de 11,7% em 98; de 11 4% nos três primeiros meses de 99; e de 8,7% de janeiro a junho.
Na indústria de transformação as perspectivas mais desfavoráveis são para o setor de bens de capital, que no primeiro semestre deverá acumular queda de 21,4%. Os bens intermediários terão produção retraída em 7,5%. Os bens de consumo poderão experimentar um crescimento pequeno, de 0,9% no semestre, mas graças aos não-duráveis, que pelo modelo do IPEA terão expansão de 5,4%, o que contrabalançará o péssimo quadro que se desenha para os bens duráveis, cuja queda projetada é de 15,3% no acumulado do primeiro semestre.
De acordo com Paulo Levy, se de um lado a turbulência causada pela mudança cambial tornou a recessão mais profunda do que a imaginada no final do ano passado, de outro abre as portas para que a recuperação seja muito mais rápida. "É difícil saber quando as coisas se apresentarão de maneira mais positiva", admite ele, para quem, de qualquer forma, a transição para o crescimento tem chances de se dar em um período de seis a oito meses.
Ele acredita até que no final do segundo trimestre já se terá como detectar sinais, mesmo modestos, de uma reversão de tendência. Afinal, lembra, o País passará por uma mudança de preços relativos, que beneficiará os exportadores e os setores que vinham sofrendo com a concorrência dos importados, como o segmento de autopeças. Em seu entender, não faz sentido transpor para o Brasil a experiência dos países asiáticos e do México, que sofreram - e em alguns casos, sofrem ainda - com duras e longas recessões.
Crédito - Os problemas na ásia e no México, frisa, tinham como pano de fundo um sistema financeiro desestruturado. O México, por exemplo, começou com uma crise cambial e acabou em uma desestruturação financeira cuja regularização custou ao governo local dez vezes mais que o programa de reorganização do setor financeiro feito pelo Brasil. Além disso, lá houve um rompimento quase que total na cadeia de crédito.
No Brasil, assinala, o nível de endividamento geral é bem mais baixo e os bancos estão saudáveis. Assim, quando os juros começarem a cair, haverá crédito disponível para a população e as empresas - notadamente as exportadoras. Em outros países em crise, destaca ainda, a rigor não sobraram recursos para emprestar. Ele cita o caso da Coréia, país no qual o rompimento da cadeia de crédito vem sendo um obstáculo às exportações. "Os coreanos melhoraram a sua balança comercial, mas porque as importações diminuíram drasticamente por causa da recessão, e não em decorrência de um crescimento de exportações." A inflação que os brasileiros enfrentarão este ano, para Paulo Levy, será passageira. Ele reconhece que o Brasil é muito mais sensível que outros países a pressões por reindexação de preços. Apesar disso, entende que não haverá descontrole, até porque o governo deverá manter uma política monetária e fiscal apertada, ou seja, não haverá dinheiro farto o bastante para que os consumidores possam ratificar aumentos grandes de preços.
Conforme suas estimativas, a inflação de 99 ficará entre um terço e metade da desvalorização cambial: se a desvalorização do real ante o dólar se fixar em 30%, ou seja, a cotação do dólar ficar entre R$ 1,50 e R$ 1,60, a inflação do ano chegará a 10%, aproximadamente. As maiores altas, diz ele, ocorrerão no atacado, porque nesta área quase tudo ou é exportável - com preços que acompanham os valores internacionais - ou com conteúdo importado relevante.

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