Um estudo que está sendo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra um aspecto até agora inédito do processo de migração da população rural em direção às cidades brasileiras: a ‘‘masculinização’’ do campo. Ao contrário do que ocorria nas décadas anteriores, nos anos 90 a maioria dos migrantes, segundo o estudo, é jovem, na faixa dos 15 aos 19 anos, e constituída de mulheres. Em consequência disso, entre os 32 milhões de habitantes atuais da zona rural, há cerca de 3,5 milhões de homens a mais do que mulheres.
‘‘Parece estar surgindo no campo, além dos sem-terra, o grupo dos sem-mulheres’’, brinca o presidente do Ipea, Fernando Rezende. Nas cidades, a situação é oposta. Segundo o Ipea, numa população urbana estimada em 120 milhões de pessoas, existem aproximadamente 12 milhões de mulheres a mais do que homens. O estudo ‘‘Êxodo Rural, Envelhecimento e Masculinização no Brasil: Tendências Recentes’’ foi preparado com base nos dados do censo populacional de 1996 pelas pesquisadoras Ana Amélia Camarano e Marly Santos, do Ipea, e pelo professor Ricardo Abramovay, da Universidade de São Paulo.
O fenômeno da ‘‘masculinização’’ do meio rural não é exclusivamente brasileiro. Na França, a situação é conhecida como ‘‘celibato rural’’, por causa da falta de pares femininos para a população camponesa masculina. Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), em 1955 havia na região 5,2 milhões de homens a mais do que mulheres vivendo no campo. Naquele ano, de acordo com a Cepal, faltavam parceiras para 1,6 milhão de homens latino-americanos na faixa dos 15 aos 29 anos.

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