Estudo destaca importância de acompanhamento a curados de câncer
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terça-feira, 05 de fevereiro de 2019
Isabela Fleischmann <br>Reportagem Local 

Uma pesquisa do Inca (Instituto Nacional do Câncer), do Rio de Janeiro, divulgada nesta segunda-feira (4), durante solenidade do Dia Mundial de Combate ao Câncer, compartilhou relatos de sobreviventes da doença. De acordo com pesquisa, embora a sobrevida tenha aumentado, muitos pacientes mantêm sequelas, inclusive emocionais.
A médica epidemiologista Liz Almeida, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca e coordenadora da pesquisa, explica que o aumento do número de pessoas que sobrevivem à doença agrega um novo desafio para a rede de saúde: o acompanhamento desses sobreviventes.
"Sempre fazemos a promoção da saúde e prevenção do câncer, mas nunca conversamos sobre a vida depois do câncer. O tratamento acabou, e aí?", questionou. Para a médica, as pessoas que passam pelas duras etapas de diagnóstico e tratamento do câncer têm que retomar a rotina após a cura. "O estudo levantou as necessidades dessas pessoas em quatro tipos de câncer: próstata, mama, colo de útero e leucemia linfoide aguda. Entrevistamos pacientes e familiares com alguém com esses tipos de câncer", explicou.
As entrevistas foram feitas em Fortaleza (CE) e no Rio de Janeiro, em hospitais públicos e privados. "Observamos que não existe diferença na maior parte das características dessas pessoas, é duro para todo mundo, as necessidades são as mesmas, salvo algumas diferenças entre o sistema público e privado, mas ambos têm problemas."
Entre o conjunto de necessidades levantadas pelos pacientes curados está o fato de que o tratamento, embora mantenha a vida do indivíduo, leva a efeitos colaterais importantes. "Durante um tempo elas não conseguem retomar as atividades normais e isso afeta familiares. Nem sempre os patrões são receptivos. É um baque grande para a questão financeira", lembrou.
Uma das principais conclusões do estudo é que, após o diagnóstico, os pacientes mudaram hábitos de vida, priorizando escolhas mais saudáveis. Dietas melhores, exercícios físicos e exames periódicos, que são indicados para uma boa saúde universal, são tratados com prioridade.
Diante do diagnóstico, a ficha cai. Para Almeida, a consciência da proximidade da morte leva as pessoas a demonstrar afeto. "Toda vez que você está diante de um sofrimento profundo você reavalia valores, como decidir com quem quer passar o restante da vida", afirmou.
Almeida explica que o acompanhamento emocional deve ser também para com os familiares e não só para os pacientes. "Afeta o paciente e o acompanhante sobretudo, porque ele entra em um grau de exaustão, de sobrecarga, e de temor. A filha que diz que virou a mãe da mãe, fica o tempo todo preocupada, a mudança dos papéis desempenhados, por exemplo."
A questão emocional não afeta somente no período de tratamento, em que o paciente necessita de apoio familiar, mas também nos casos de sequelas. "O câncer de colo de útero, se a mulher não for bem atendida, pode ter grande dificuldade na parte sexual. Mesma coisa para a próstata. Essas questões que envolvem sexualidade atingem o emocional de forma intensa", relatou.
A médica lembra que o quadro emocional pode inclusive influenciar o resultado do tratamento. "A depressão pode afetar o paciente e o acompanhante", destacou.
APOIO FAMILIAR
Mas a depressão não foi o caso de Laudelina Pereira Rocha, 79, diagnosticada com câncer de mama em 1994. Foi durante um exame de rotina, a mamografia, que o médico identificou o tumor e ela fez a biópsia. "No dia 19 de dezembro de 1994 eu fiz a mastectomia", recordou. Foram cinco anos de tratamento, com sessões de radiografia e acompanhamento com exames. "Graças a Deus estou bem aqui", celebrou.
O câncer não modificou hábitos alimentares de Rocha porque, segundo ela, "já tinha alimentação boa". "Só peixe que eu não era muito chegada, mas agora estou comendo porque faz bem para a saúde", contou.
Uma mudança importante veio da proximidade com os afetos. "Recebi muito apoio da minha família e dos amigos, o que fortaleceu. O apoio do meu marido, das minhas duas filhas e meus genros. Ajudou bastante", recordou.
Após cinco anos de tratamento e anos depois da cura, Rocha ainda retorna ao médico anualmente para passar por exames. "Aqui em casa falam que sou guerreira. Temos que lutar e vencer. Tem gente que fica derrubado. Sentimos, porque é um baque, mas eu fiquei bem. Eu tive o poder de ter e de curar."


