As imagens inspiradas por meninos e meninas de rua remetem a pessoas sem futuro, abandonadas, potenciais marginais e prostitutas. O universo dessas crianças, porém, é muito mais complexo e não se resume à convivência imposta pelo violento cotidiano das ruas. A maioria deles alimenta sonhos e desejos, como qualquer outro jovem. Namoram, apaixonam-se e até escrevem poesias.
Essa conclusão faz parte da tese do doutorado da socióloga Aparecida Fonseca de Moraes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Há dois anos, ela estuda a sexualidade e os relacionamentos afetivos de adolescentes em situação de abandono social e como esses temas são tratados por instituições que lidam com menores.
‘‘O que eu percebi é que existe todo um espetáculo de degradação da condição social desses meninos, que é difundido pela mídia e reforçado por essas instituições, mesmo sem querer.’’ Segundo a socióloga, esse discurso público, que ela chama de ‘‘denúncia institucionalizada’’, acaba por dificultar, e até mesmo impedir, que outras facetas ‘‘mais humanizadas’’ dos jovens se sobreponham.
Para a tese, que tem apoio da Fundação Amparo de Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), Aparecida entrevistou 56 adolescentes assistidos por entidades sociais e 38 profissionais de seis instituições de amparo que mantêm convênios com a Prefeitura do Rio. Nos dois grupos, Aparecida viu nítidas diferenças na percepção da realidade vivida pelos meninos de rua.
‘‘A grande parte dos profissionais, talvez preocupados em denunciar o problema social, acaba rotulando esses jovens como diferentes e incapazes de viver a sexualidade normal atribuída a outros grupos sociais’’, afirma a socióloga. ‘‘É como se, no universo deles, não coubesse o prazer, a escolha, o desejo e o romantismo.’’
Segundo a pesquisadora, as imagens pintadas pelos profissionais são as de uma iniciação sexual prematura e violenta, de experiências homossexuais, de pessoas vulneráveis a doenças sexualmente transmissíveis e de meninas com tendências à prostituição, que sofreram abusos sexuais na infância.
‘‘É lógico que esse contexto de violência existe, e é bem marcado, mas, felizmente, não é só isso’’, afirma. ‘‘Muitas meninas, por exemplo, engravidam por escolha, sonham em casar e ter filhos. Os meninos mostram-se preocupados com o primeiro emprego e alguns assumem a paternidade.’’
Por causa desse discurso da violência, afirma Aparecida, muitas vezes os profissionais não conseguem perceber as alternativas que os próprios garotos criam para se preservar de problemas como a Aids e a gravidez indesejada.
A pesquisadora lembra que, das 38 meninas entrevistadas, 5 foram estupradas. Nas outras 33 meninas, a iniciação sexual se deu por escolha individual do parceiro. ‘‘Conheci meninos e meninas de rua que interpretam de outra maneira suas experiências sexuais e, muitas vezes, só o que reivindicam é mais liberdade, a possibilidade de experimentar, de ter prazer, como qualquer jovem de classe média.’’

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