Estudo da Fipe mostra impacto da inflação sobre salários
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terça-feira, 16 de março de 1999
Por Liliana Pinheiro 
São Paulo, 17 (AE) - A cada ponto de inflação acumulada sem a contrapartida de recomposição dos ganhos dos trabalhadores formais e informais, haverá uma queda de 0,39% na participação dos rendimentos do trabalho no Produto Interno Bruto (PIB). A estimativa de participação atual é de 40%. Isso significa que, para uma inflação de 10%, o recuo será de 3,63%. Se for de 15%, o recuo será de 5,2%. Caso o último exemplo se confirme, o Brasil entrará no ano 2000 com menos R$ 46 bilhões para o consumo, um indicativo ruim para o País em tempo de recessão.
O cálculo é do pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) , Hélio Zylberstajn. O economista também é coordenador do Programa Mediar da universidade, que acompanha resultados de negociações entre empresas e trabalhadores.
Segundo ele, trata-se de um cálculo grosseiro, baseado na hipótese de que a média dos rendimentos não vai alterar-se, para um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em US$ 900 bilhões. "Mas em meio às incertezas da economia, muito pode mudar."
O problema no Brasil é que a participação de 40% dos rendimentos do trabalho no PIB já é muita baixa e permite pouca manobra em momentos de crise. Em países desenvolvidos, a média é de 60%, lembra o economista. Essa realidade de péssima distribuição de renda, para Zylberstajn, é que acirra tanto os ânimos de sindicalistas, juízes trabalhistas, empresários, políticos e governo, em um momento em que a inflação parece fugir ao controle e, como consequência, o tema indexação de salários volta à pauta de todos.
Sem saída - Quando categorias chegarem à data-base com perdas acumuladas em 10%, 15% ou até mais, aí o conflito estará instalado e a simples transferência da responsabilidade para quem decidir recompor o poder de compra dos salários será o pior caminho. "O que não podemos é imaginar é um juiz trabalhista negando a reposição das perdas, se todos os outros envolvidos não se mexerem para encontrar alternativas para a indexação", afirma. "Seria pedir demais da Justiça do Trabalho."
Para ele, a realidade hoje é de falta de consenso em todas as organizações. Sindicalistas não se entendem, nem empresários. Juízes estão com posições divergentes e ninguém sabe ainda qual será a tese vencedora (indexação ou não) nos julgamentos dos dissídios coletivos. Políticos já começam a debater de forma extremada a necessidade (ou a calamidade) de criar uma nova lei de proteção a salários. O governo fecha questão contra a indexação, mas não negocia saídas, nem ante a proximidade de maio, mês de reajuste no salário mínimo.


