Estudo da CNI mostra que queda do salário compensou aumento de insumos
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terça-feira, 25 de janeiro de 2000
Por Irany Tereza 
Rio, 25 (AE) - Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que em 1999 os aumentos de custos de insumos e matérias-primas foram, em alguns casos, compensados pela queda do salário real pago aos trabalhadores. Graças a este artifício, parte da indústria conseguiu absorver a inflação no atacado sem repassá-la totalmente ao varejo.
Pelo acompanhamento dos Indicadores Industriais, a entidade observou um recuo de 3,3% nos salários de janeiro a outubro de 99, em comparação com 98, já descontando o efeito da inflação.
A manutenção da folha de pagamentos em patamares mais baixos compensou em parte a relação dos custos, sem a necessidade de redução drástica das margens de lucro. A analista Simone Saisse Lopes, da Unidade de Relações do Trabalho da CNI, acredita que a continuidade dos ganhos de produtividade deve abrir espaço para aumento dos salários no futuro. Ela não vê, porém, possibilidade de retomada total das perdas este ano.
"Há espaço para alguma recuperação, mas não uma volta já ao nível de 98", diz ela. A queda do ano passado fez com que os salários da indústria caíssem ao degrau de três anos atrás. Simone lembra, contudo, que o recuo nos rendimentos ocorreu em todos os setores, como demonstram os levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "No conjunto da economia, chegou a 5% o índice de queda", diz ela.
A CNI trabalha com uma expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 3% para este ano, índice abaixo dos 4% projetados pelo governo. Mas, ainda assim, aliado a uma taxa de inflação anual de 7%, isto poderá propiciar, segundo estimam os técnicos da entidade, uma geração de empregos acima de 1% (em 99 a taxa foi de apenas 0,3%), além de impedir mais achatamento salarial.
Levantamento da Unidade de Relações de Trabalho, com base em 185 acordos entre trabalhadores e empresas, constatou que 13 documentos nem apresentaram cláusulas salariais. Nos restantes 172, não houve concessão de reajuste nem abono em 5,8% dos casos. Outros 5,8% tiveram apenas abono; 11,6% apresentaram reajustes diferenciados de acordo com a função de cada empregado e 76,6% conseguiram reajuste único. Como é a primeira tabulação do tipo feita pela entidade, não há base de comparação para acompanhar a evolução dos acordos.
A alta da inflação em 99 e a elevada taxa de desemprego são as duas principais causas apontadas pela CNI para a queda dos salários. "A flexibilidade do salário real, possibilitada pela ausência de reajustes automáticos à inflação passada, foi marcadamente importante no período", diz Simone. No atacado, a inflação do ano foi de 28,9% (Índice de Preços no Atacado - Disponibilidade Interna); no varejo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo ficou em 8,9%.
Embora a taxa de inflação no atacado possa apresentar alterações, já que as estatísticas são feitas com base nos preços de tabela e não nos efetivamente negociados pelas empresas com seus fornecedores, a diferença entre os dois índices deixa claro que houve uma retenção inflacionária no atacado. A compensação, na indústria, portanto, ocorreu em outros itens de custo, notadamente nos salários.
Não há uma avaliação sobre o peso médio da folha de pagamentos na relação de custos da indústria. Segundo Simone, a heterogeneidade no setor é muito acentuada e qualquer média aritmética traria um resultado distorcido. "Ramos industriais como o têxtil e o calçadista, por exemplo, são de trabalho intensivo, ou seja, a participação no custo unitário é alta", diz Simone. "Já o setor de produção de bens de capital, como o da indústria automotiva, é de capital intensivo, o custo unitário do trabalho é baixo, por isso não há como fazer uma média para toda a indústria." A recuperação do salário industrial, mesmo que ocorra de forma moderada, deverá trazer reflexos positivos para toda a economia.
Tradicionalmente, a média de salários na indústria é mais alta do que nos demais setores e uma retomada do poder aquisitivo dos trabalhadores do setor industrial pode elevar o nível de rendimento total. Para este ano, porém, a visão mais otimista é de um freio na queda e não de uma aceleração no crescimento.


