Estudo aponta caminhos para superação da crise do emprego
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de maio de 1999
Por Denise Neumann 
São Paulo, 02 (AE) - Se a criação do maior número de empregos no curto prazo for o principal objetivo de um projeto de desenvolvimento, o setor agropecuário, a indústria do vestuário e o comércio precisam ser tratados com prioridade.
Duas pesquisas sobre o potencial de criação de postos de trabalho embutido em determinado valor de aumento de demanda ou investimento revelam que esses setores estão entre os que mais criam vagas, considerando emprego direto, indireto e efeito renda.
Os setores que menos oferecem oportunidades novas de emprego são refino de petróleo, comunicações, fabricação de automóveis e produção de aparelhos e de equipamentos de material eletrônico. A favor desses setores de capital intensivo está o fato de, a longo prazo, estimularem muito mais a economia.
Prioridades - O primeiro trabalho, de 1996, foi desenvolvido por economistas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e analisou 41 setores. Dois aspectos foram considerados de forma prioritária: quais os setores que mais criam empregos e quais os setores-chave para a economia, olhando também do ponto de vista do crescimento econômico. Para a primeira parte, o estudo calculou quantos empregos podem ser criados em cada setor com US$ 1 milhão de aumento na demanda final (inclui aumento de investimento, nas exportações ou no consumo do governo).
O trabalho contou vagas diretas, indiretas e efeito renda. "Entre os dez setores que mais criam emprego, sete são ligados à agroindústria", diz o economista Marcelo Ikeda, do BNDES, que trabalha com as economistas responsáveis pelo estudo, Sheila Najberg e Solange Paiva Vieira.
Vestuário - O setor que lidera o ranking do estudo do BNDES é o de artigos de vestuário. Nesse segmento, US$ 1 milhão de aumento de demanda permitiriam criar 355 empregos, sendo 202 diretos, 47 indiretos e 106 pelo efeito renda (maior consumo dos novos trabalhadores).
Na sequência vêm os setores agropecuário, madeireiro e mobiliário, fabricação de calçados, comércio, abate de animais, indústria do café, outros produtos alimentícios, indústria de laticínios e beneficiamento de produtos vegetais.
Estratégicos - Na segunda parte do estudo, os economistas do BNDES olharam a capacidade de cada setor de impulsionar outros segmentos e, também, sua dependência em relação a outros setores.
"Esta análise permite olhar a importância de um setor tanto na criação de empregos como no estímulo à economia", explica Ikeda. Alguns setores criam muito emprego, mas estimulam pouco o desenvolvimento econômico. O comércio é um deles, porque depende de outros setores, mas não é um forte propulsor de investimentos em outras áreas, por ser o elo final das cadeias produtivas.
O comércio foi o único setor, entre os dez que mais criam emprego, que não foi considerado "chave" para o desenvolvimento econômico.
O setor de refino de petróleo, por exemplo, é o que menos cria emprego (104 para cada US$ 1 milhão), mas ainda assim foi considerado estratégico para a economia. Os principais resultados do trabalho referem-se a Matriz de Insumo-Produto de 1990, mas parte dos dados foram atualizados com informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 1993.
Investimento - Outro trabalho que parte da mesma motivação (identificar os setores com maior potencial de criação de emprego) foi feito pelo economista Ernesto Moreira Guedes, da Tendências Consultoria Integrada.
Guedes utilizou a Matriz Insumo-Produto de 1995 (já incorporando efeitos da abertura comercial) e chegou a resultados semelhantes aos obtidos pelo trabalho feito pelos economistas do BNDES.
O estudo pesquisou a capacidade de criação de empregos diretos e indiretos para cada R$ 100 mil investidos. Os três primeiros lugares ficaram com o setor de serviços privados não mercantis (parte de comércio, parte serviços à população), agropecuária e artigos de vestuário. No primeiro (serviços não-mercantis), cada R$ 100 mil permitem criar quase 70 empregos diretos e indiretos. Nos dois seguintes, a mesma quantia cria 22 vagas.
Desproporção - O mesmo trabalho mostra que um investimento de R$ 100 mil em telecomunicações - um dos setores que mais têm recebido investimento nos últimos anos - permite a abertura de 2,7 novas vagas.
Na indústria automobilística essa relação é de apenas 3 5 empregos para cada R$ 100 mil. O refino de petróleo também fica em último lugar, com menos de dois empregos para cada R$ 100 mil investidos.
Os setores de infra-estrutura, pondera Guedes em uma versão resumida do trabalho, estão entre os que mais têm atraído investimentos (como telecomunicações, energia elétrica, exploração e desenvolvimento de campos de petróleo, e, na indústria de transformação o destaque é a indústria automobilística). Mas esses setores também estão entre os que menos criam empregos.
Guedes adverte que no curto prazo os setores que mais criam emprego são os que menos remuneraram; no longo prazo, afirma, os efeitos dinâmicos dos investimentos em setores-chaves propagam-se por toda a economia, criando demanda, produção e empregos. E, neste caso, são vagas de maior qualidade e melhor remuneração.


