Baixa qualidade das rodovias resulta em aumento de quase 25% no custo operacional dos caminhoneiros autônomos e das transportadoras
Baixa qualidade das rodovias resulta em aumento de quase 25% no custo operacional dos caminhoneiros autônomos e das transportadoras | Foto: Fotos: Anderson Coelho



A CNT (Confederação Nacional do Transporte) lançou nesta quinta (24) um estudo intitulado "Por que os pavimentos das rodovias do Brasil não duram?". Segundo o documento, buracos, ondulações, fissuras e trincas são alguns dos defeitos encontrados em mais da metade das rodovias pavimentadas do País. A malha asfáltica, que tem vida útil estimada entre 8 e 12 anos, tem apresentado problemas estruturais muito antes, em alguns casos meses após a conclusão da obra da rodovia.

A equipe técnica analisou o estado de conservação dos pavimentos das rodovias brasileiras nos últimos 13 anos. O trabalho levou em conta métodos e normas que regem as obras rodoviárias no Brasil e em outros países; levantou resultados de auditorias realizadas por órgãos de controle; e ouviu a opinião de especialistas dos setores público, privado e da academia. A conclusão da CNT é que o Brasil utiliza metodologias ultrapassadas para o planejamento de obras, apresenta deficiências técnicas na execução, investe pouco e falha no gerenciamento de obras, na fiscalização e na manutenção das pistas.

Pelo estudo, a metodologia utilizada no Brasil para projetar rodovias tem uma defasagem de quase 40 anos em relação a países como Estados Unidos, Japão e Portugal. Com área equivalente a Pernambuco, Portugal dividiu o território em três zonas climáticas. As técnicas e os materiais utilizados na construção das rodovias variam em cada uma delas. "O método empregado no Brasil não faz essa diferenciação importante para dar mais precisão ao projeto", traz o estudo.

A falta de fiscalização é outro problema apontado. Muitas obras são entregues fora dos padrões mínimos de qualidade, exigindo novos gastos para correção de defeitos que podem corresponder a até 24% do valor total da obra, conforme a CNT. "Com poucas balanças em operação e sem fiscalização adequada, também cresce o problema do sobrepeso no transporte de cargas, cujo impacto reduz a vida útil do pavimento."

A má qualidade dos pavimentos se agrava com a falta de investimentos em manutenção preventiva. A CNT estima que quase 30% das rodovias federais sequer têm contrato de manutenção. Os especialistas ouvidos pela pesquisa avaliam que a maioria das rodovias – muitas da década de 1960 - já ultrapassou a vida útil prevista no projeto. A recuperação prevê a necessidade de reconstrução parcial ou total em casos particulares, com uso sugerido do próprio pavimento reciclado.

A baixa qualidade das rodovias resulta em aumento de 24,9% no custo operacional dos caminhoneiros autônomos e das empresas transportadoras. Wilson Gomes Firmino, 47, é caminhoneiro há 25 anos e já perdeu as contas do número de molas e pneus danificados nas viagens. "Já levei mais de seis horas para percorrer trecho de 40 quilômetros. Falta manutenção", avalia.

Caminhoneiro há 25 anos, Wilson Gomes Firmino já perdeu as contas do número de molas e pneus danificados nas viagens
Caminhoneiro há 25 anos, Wilson Gomes Firmino já perdeu as contas do número de molas e pneus danificados nas viagens



Somente em razão da má qualidade do pavimento, em 2016, o setor de cargas registrou um gasto excedente de 775 milhões de litros de diesel, que provocou um aumento de custos da ordem de R$ 2,34 bilhões. Vandeir do Nascimento Santos, 45, que percorre com frequência rodovias do Paraná, São Paulo e Minas Gerais, também reclama da vida útil da pavimentação. "Tem lugar que você passa que está pretinho, um tapete. Depois de quatro meses, já está todo esburacado", comenta.

Para o presidente da CNT, Clésio Andrade, a precariedade dos pavimentos reflete a situação geral do transporte rodoviário no Brasil. Pelas rodovias trafegam cerca de 90% dos passageiros e 60% das cargas brasileiras. "Mesmo sendo essencial para a nossa economia, mais uma vez, constatamos que o setor não vem recebendo a devida atenção por parte do poder público", afirma Andrade.

"Sem uma malha rodoviária de qualidade e proporcional à demanda do País, a economia brasileira terá dificuldades de crescer de forma dinâmica e na rapidez de que o País necessita", alerta. Segundo ele, além de melhorar a qualidade das rodovias, o Brasil precisa fazer fortes investimentos em transporte e logística para ampliar e diversificar a matriz de transporte. "Precisamos de uma política de transporte multimodal e integrada, com garantia de investimentos consistentes, a longo prazo, para superar o atraso em infraestrutura. Essa é uma condição incontornável para que o Brasil possa voltar a crescer e se desenvolver de forma sustentável", completa.

"Tem lugar que está um tapete. Depois de quatro meses, já está todo esburacado", comenta Vandeir Santos
"Tem lugar que está um tapete. Depois de quatro meses, já está todo esburacado", comenta Vandeir Santos



DNIT
O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) contesta os dados do estudo. Segundo o órgão, que é responsável por 52 mil quilômetros de rodovias federais pavimentadas não concedidas, nos últimos 13 anos houve "considerável melhora" no perfil do pavimento das rodovias federais. Pelos dados apresentados pelo Dnit, em 2004, 47% da malha rodoviária estavam em condições ruins. Em 2015, este índice caiu para 17%.

O Departamento afirma que sua metodologia construtiva é a mesma utilizada em países da Europa e dos Estados Unidos e que não há falta de planejamento. "O Dnit planeja suas obras de infraestrutura partindo de ações técnicas que levam à elaboração e execução do Plano Nacional de Manutenção Rodoviária."

A informação de que 30% das rodovias federais não têm contrato de manutenção também foi refutada. O órgão afirma que apenas 10% estão descobertos, sendo que, desse percentual, 40% estão em fase de contratação e 60% em fase de levantamento de dados para posterior contratação. O Dnit informa ainda que conta com 125 unidades de fiscalização e que observa as características de cada região do País, levando em consideração as fontes de materiais disponíveis, a janela hidrológica, relevo e clima onde será implantada a obra.

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