Estudiosos dizem que sexo virtual pode ser saudável
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de julho de 2000
Mary Persia de Oliveira Especial para a Agência Estado 
O sexo virtual é apenas uma forma de buscar o prazer que, como qualquer coisa na vida, pode ser prejudicial se levado com exagero e pode até ser benéfico. Esta é a opinião de estudiosos do comportamento humano, que tranquilizam os brasileiros: são poucos os casos de compulsão por sexo virtual, no País ou no exterior, e eles só ocorrem com quem tem predisposição ao comportamento compulsivo.
Essa notícia é um alento a quem ficou preocupado com as conclusões de uma série de estudos sobre o tema publicados recentemente nos Estados Unidos. A última edição do Sexual Addiction and Compulsivity Report The Journal of Treatment and Prevention, publicação do Conselho Nacional de Compulsão Sexual norte-americano, traz, entre diversos artigos, o resultado de uma pesquisa realizada por psicólogos da Universidade de Stanford.
Os números apresentados deixaram o Tio Sam em estado de alerta: 17% dos internautas americanos passam, pelo menos, 11 horas por semana em busca de prazer sexual na rede, e 1% pode ser classificado como viciado em sexo on-line. Daí a se pensar que a compulsão por sexo virtual pode estar a um clique de mouse, foi um passo.
Para especialistas brasileiros, no entanto, o impacto causado pela pesquisa é desmedido. Existe uma tendência na psiquiatria e na psicologia norte-
americanas de tentar aglutinar sintomas e transformar essa soma em doença, tomando o efeito pela causa. Isso é alarmista e reducionista, considera o psiquiatra e psicoterapeuta Sérgio Campanella, do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Autor do livro A Sexualidade do Homem (Editora Lemos), com mestrado e doutorado no assunto, Campanella acredita que essa tendência norte-americana é também algo moralista, superficial e empírica, pois transforma angústias e comportamentos em doenças.
O psiquiatra Ricardo Bacarelli, de São Paulo, faz coro: Os americanos têm o costume de concluir tudo muito rápido. Idealizador de um site sobre sexo para adolescentes chamado Caliente (www.caliente.com.br), Bacarelli diz que é muito cedo para se obter qualquer conclusão, seja no Brasil ou nos Estados Unidos.
Por que a procura por sites e chats de conteúdo erótico é tão grande? A palavra-chave é anonimato, explica Rodrigues. A pessoa tem a liberdade de desejar o que quiser. Mesmo se for a uma casa de massagem, sem que ninguém saiba, ela estará expondo seu desejo e isso causará, de alguma forma, constrangimento. Na Internet, não.
Para os especialistas, há pontos positivos no cibersexo, ligados principalmente ao autoconhecimento. O sexo virtual pode ser saudável, pois dá asas à imaginação e brinca com a noção de verdade e mentira, diz Campanella, e quem o pratica passa por uma etapa de autoconhecimento, experimenta as várias modalidades de prazer. É como se estivesse treinando a máquina. Ou seja, essa prática oferece as mesmas possibilidades da masturbação. Pode ser uma chance de reconhecer os limites sexuais e sentimentais e lidar com as fantasias, sem grande comprometimento,
complementa Rodrigues.
Contanto, salientam os psiquiatras, que o cibersexo não seja feito em excesso e não exclua outras possibilidades de prazer. Como resume Bacarelli, o problema não é fazer sexo virtual, é limitar-se a ele.
A Igreja Católica divulgou uma relação de pecados virtuais na revista italiana Famiglia Cristiana, uma das principais publicações da Santa Sé. Segundo a lista, são condenados, tanto quanto seus correspondentes no mundo real, o adultério e as conversas eróticas por e-mail, ICQ, chat e qualquer sistema de comunicação que surja na Internet. Se um homem faz de conta que tem uma relação sexual com uma mulher fora dos preceitos da Igreja, deverá ter a mesma penitência de quem o tenha feito de fato. A recomendação do Vaticano é utilizar salas de bate-papo e sites apenas para pesquisas e estudos.


