Estudantes vão retomar manifestações nas ruas
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domingo, 11 de novembro de 2001
Agência Estado 
Invasão a reitorias, protestos com carro de som em frente às universidades e previsão de 60 mil estudantes nas ruas. São esses os planos da União Brasileira dos Estudantes (UNE) para fortalecer a campanha que tem início na próxima terça-feira em favor da redução das mensalidades.
A ação, batizada de ''Educação Não é Supermercado'', acontece num período em que o movimento estudantil volta a protagonizar atos agressivos. Os próprios líderes admitem que a violência poderá, novamente, ser um instrumento das manifestações. ''Vamos jogar pesado. A partir de março o bicho vai pegar'', afirma Carla Santos, de 21 anos, presidente da União Nacional dos Estudantes Secundaristas (Ubes), que ganhou notoriedade quando ficou nua em frente ao Congresso Nacional, em junho, num protesto contra a corrupção.
O clima nem de longe parece com o que fora percebido nas passeatas pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em 1992, quando milhares de estudantes protagonizaram manifestações pacíficas pelas ruas do País.
Sem derrame de sangue, o maior movimento estudantil desde os conflitos da década de 60 conseguiu na ocasião colaborar com a renúncia de um chefe de Estado. Quase dez anos se passaram e a forma pela qual os estudantes procuram exercer seus direitos ganhou novas nuances.
No último dia 28, a manifestação de estudantes para impedir a realização do vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) deixou sete pessoas feridas. Eles invadiram salas de aula onde os testes estavam sendo realizados e rasgaram as provas.
Quatro meses antes, estudantes da Universidade de São Paulo (USP) quebraram uma porta de vidro do auditório onde estava reunido o Conselho Universitário. O objetivo: impedir a votação da regulamentação do sistema de fundações da universidade. Em setembro, a pancadaria se repetiu em uma nova manifestação.
O histórico de violência há tempos acompanha as manifestações estudantis. Desde a criação da UNE, por meio de decreto assinado por Getúlio Vargas, em 1938, o movimento convive com grupos extremistas que acreditam que a guerrilha é a melhor solução para resolver os problemas do país.
Outro exemplo recente de intolerância foi a manifestação contra a apresentação da tese de mestrado do capitão da Polícia Militar, Wanderley Rohrer. Alunos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) o acusam de liderar a repressão ao protesto antiglobalização realizado na Avenida Paulista, em 20 de abril. Na PUC, depredaram o patrimônio da universidade e atiraram uma torta no capitão, impedindo a defesa da tese.
O argumento utilizado pelo líder dos manifestantes, o estudante de Ciências Sociais Leonardo Pinho, de 22 anos, é de que um suposto repressor não poderia frequentar um ambiente democrático, como o da universidade. Defende que a PUC deveria expulsá-lo sem direito de constestação. De quebra, prega a extinção da polícia, uma instituição onde, segundo ele, o conhecimento está ''a serviço da repressão''. E discusa em causa própria. ''A segurança pública tem que ser controlada pela própria comunidade'', acredita.
O grupo de radicais é engrossado por estudantes filiados a partidos políticos, como o PCO (Partido da Causa Operária). São militantes que acreditam que o terrorista Osama Bin Laden não deve ser condenado pelo mundo. E justificam: Bin Laden é produto da repressão que o Afeganistão sofre dos Estados Unidos. Acham que a luta armada á uma alternativa para transformar o País e esperam ansiosamente por uma revolução proletária
Marcelo José do Carmo, de 28 anos, estudante do curso de Letras da USP e membro da direção do PCO, passa os dias em reuniões na sede do partido. ''Não dá para exigir dos dominados uma reação sem violência'', acredita o fã de Trotski e das Farcs colombianas.
A justificativa para tanta energia e radicalidade, dizem líderes estudantis oficiais, é que esse tipo de movimento serve de resposta à crescente onda de repressão policial. ''É justificável radicalizar quando não há outra saída. É a forma que o movimento encontra'', diz Luiz Ricardo Oliveira, de 25 anos, que desde maio preside a União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE) .
FIlho de um metalúrgico engajado no movimento sindical e filiado ao PC do B, o ''Moleza'', como é conhecido, cresceu fascinado com as reuniões clandestinas que presenciava em casa. Ao 12 anos, assistiu ao filme ''A Classe Operária Vai ao Paraíso'', do italiano Elio Petri. E disse ter se surpreendido. Anos depois, filiou-se ao PC do B, começou a ler textos do teórico do socialismo e revolucionário alemão Karl Marx e se engajou no movimento. Mas continua sustentado pelos pais, que pagam o aluguel e fazem pressão para o filho voltar para a universidade.
Assim como Oliveira, o presidente da UNE, Felipe Maia, admite que pouco pode fazer para controlar as vontades dos estudantes. Também filiado ao PC do B e com o curso de economia da PUC-SP trancado, diz que caso os universitários decidam partir para a pancadaria, não serão os líderes que terão autoridade para impedí-los. ''Não temos como parar aqueles que querem provocar conflito. Não dá para algemá-los'', diz. São Paulo que se prepare.
A Ubes planeja atos também para o início do próximo ano. Tentará reunir 50 mil pessoas num protesto contra o governo de Fernando Henrique Cardoso. E pela construção de uma ''escola humana'', como lembra Carla Santos. ''A gente vive hoje uma guerra civil não declarada''.
De família conservadora da cidade gaúcha de Novo Hamburgo, há bem pouco tempo a garota sequer sonhava em participar do movimento estudantil. Queria fazer parte do Balé Bolshoi, apesar do preconceito dos pais. ''Queria protagonizar'', diz. Acabou filiando-se à organização trotskista União da Juventude Socialista (UJB) e logo deparou-se com os holofotes no movimento. De quebra, conseguiu a aceitação dos pais. ''Agora eles me vêem como uma atriz da 'Globo'''.
Carla vê generalidades nos problemas da educação no Brasil. E elege o ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, como o mal a ser combatido. ''Teremos que ser radicais para chamar a atenção da sociedade.''


