São Paulo, 02 (AE) - O estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Frederico Carlos Jana Neto, de 24 anos, o Ceará, foi libertado hoje à tarde, depois de cinco dias na prisão. Considerado pela polícia e pelo Ministério Público um dos principais suspeitos da morte do calouro Edison Tsung Chi Hsueh, de 22 anos, durante trote no dia 22 de fevereiro, na Associação Atlética Oswaldo Cruz, Ceará foi ouvido hoje no inquérito e negou ter visto o calouro durante o trote.
"Nunca tive nenhum contato visual ou físico com o rapaz." Ele também denunciou ter sido torturado psicológicamente. Sobre a gravação em vídeo feita durante uma festa no fim de abril, quando disse que fora ele o autor da "morte do japonês" e lhe dera um "caldo na piscina", o estudante afirmou ter sido uma declaração "de extremo mau gosto".
O delegado Marcelo Damas, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que preside as investigações, pretendia indiciar o rapaz por homicídio doloso (intencional). Mas mudou de idéia no começo da tarde, depois de receber um telefonema do juiz da 5.ª Vara do Júri de Pinheiros, João Carlos Sá Moreira de Oliveira.
O juiz teria dito que poderia despachar favoravelmente o habeas-corpus impetrado pelo advogado José Roberto Battochio, solicitando o não-indiciamento. O delegado, então, decidiu ouvir o estudante e, no começo da noite, em entrevista, afirmou que "para fazer justiça não o indiciou, o ouviu e o pôs em liberdade".
Damas disse que vai continuar buscando provas contra Ceará e outros veteranos apontados como violentos na sindicância da Faculdade de Medicina e nas cartas anônimas dos calouros. "Tínhamos muita coisa, mas infelizmente os alunos não colaboraram e preferiram não auxiliar para o esclarecimento de um crime."Os veteranos identificados pela polícia e pela faculdade, segundo Damas, jogaram as pessoas que não sabiam nadar na piscina. "Muitos impediram que os calouros voltassem para a margem, pois pisavam nas mãos de quem tentava sair da água."
O delegado negou as acusações que Ceará fez em entrevista ao sair do DHPP, segundo as quais foi vítima de tortura psicológica. "Nada aconteceu, ele foi muito bem tratado e se se queixou de não ter tido colchonete na cela é porque não temos e não há como comprar." O policial afirmou que o estudante de medicina recebeu visitas, atendimento médico e remédio comprado pelos investigadores.
Denúncias - Afirmando que não foi violento durante o trote, não teve contato com o calouro Edison Tsung Chi Hsueh e não o conhecia, Frederico Carlos Jana Neto, o Ceará, queixou-se da maneira como foi tratado pela polícia. "Me prenderam, disseram que se não confessasse iriam me colocar numa cela com 15 dos mais perigosos criminosos."
Afirmou também que todos na faculdade sabem como ele é e tanto a polícia quanto os jornalistas tiveram muito tempo para investigar sua vida. "Nós da medicina somos tratados de maneira violenta, somos chamados de assassinos e pagamos por coisas que não fazemos." Ele confirmou ter participado do trote e ter brincado com os calouros e veteranos de boliche humano - as pessoas ficavam deitadas em local molhado e eram empurradas na direção de outros que ficavam em pé. Ceará repetiu que não usou de violência no trote, contrariando o que foi apurado pela sindicância da Faculdade de Medicina. Ele foi relacionado com outros três alunos como responsáveis pelo excesso de violência.
Revoltado, o estudante afirmou ter dormido na mesma cela onde ficou Francisco de Assis Pereira, o maníaco do parque. "Fiquei no chão frio, sem agasalho e sofri por parte dos policiais todo o tipo de humilhação." Dizendo que os jornalistas "nem imaginavam" o que ele passou nos cinco dias na cela do DHPP, Ceará afirmou que o que se passou "é irreparável".
Disse que durante o trote bebeu pouco, mesmo sem saber nadar entrou na piscina e foi embora às 17h30. Informou ainda não ter visto nenhum veterano aplicar o trote que chamam de caldo. "Ninguém foi jogado na piscina." Segundo ele, as pessoas atiravam-se na água.
Legal - Para o delegado Marcelo Damas, o estudante não disse a verdade. "A ação da polícia foi legal, solicitei a prisão temporária para ter tempo de investigar e o Ministério Público concordou e a Justiça decretou." A liberdade de Ceará, segundo o policial, não vai enfraquecer sua investigação. "Infelizmente alguns estudantes que denunciaram os veteranos violentos, como Ceará, chegaram aqui e negaram tudo no inquérito."
Para o policial, os calouros fizeram um pacto para aliviar a situação dos suspeitos do trote violento. "Continuo afirmando que Edison foi assassinado e não morreu em consequência de um acidente." Ele ainda acredita que alguma das 300 pessoas que participaram do trote acabem procurando a polícia para contar "o que realmente aconteceu naquele dia".

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