Estudante de 16 anos foi à marcha 'com um pé atrás'
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quarta-feira, 25 de agosto de 1999
Por Rosa Bastos 
Brasília, 26 (AE) - A estudante Camila Freitas, de 16 anos, aluna do segundo grau num colégio de Brasília, foi hoje à Marcha dos Cem Mil "com um pé atrás", apenas como "observadora".
Ela usava um vestido com estampas de flores, comprido, como era moda nos anos 70. Quando chegou, logo no começo do dia ensolarado, e observou a multidão que ocupava a Esplanada dos Ministérios, sentiu um nó na garganta. "Eu precisava ver isso de perto", disse. "Fico feliz porque o povo está na rua, mas tenho medo de que haja manipulação." Camila viu manifestantes enfeitados como se fossem a uma festa, ao carnaval.
Vinham de lugares distantes, eram todas muito diferentes
mas, por motivos os mais diversos, pareciam obstinadas num propósito: derrubar o presidente. "Ele não serve mais", disse a dona de casa Hidé Rosa do Prado, que tem dois filhos, moradora na zona rural de Sobradinho, perto de Brasília, fantasiada de Mister M. "Bota outro no lugar; se não prestar, a gente tira também." Vestido de mulher, bem-maquiado, o travesti Lili Carabina, carioca, de 24 anos, participou da manifestação com amigos. "Nosso grupo gay veio mostrar que tem responsabilidade social, coisa que o governo não tem." Ao lado dele, Alexandre Antunes, da comunidade da Favela de Heliópolis, zona sul de São Paulo, concordava que não há saída. "O homem tem de cair fora." "Ele destruiu nossa cidade com a venda da siderúrgica"
disse Ovídio Machado, de 76 anos, que veio numa caravana de Volta Redonda, no Rio. Depois de trabalhar 32 anos na usina, aposentou-se com a "mixaria" de 235 reais. "Meus filhos não têm onde trabalhar, as lojas fecharam, fomos muito prejudicados", continuou. "Eu não posso apoiar esse governo." De boina vermelha, o manifestante Maurício Ariovaldo Amalfi, de 47 anos, atendente no Hospital Brigadeiro, em São Paulo, carregava um enorme boneco com a inscrição "FHC traidor". No trabalho de fazer fichas de pacientes para consultas e internações, conhece muitos doentes "pobres, que não têm a quem recorrer, que não encontram socorro, leitos nos hospitais, nada". Amalfi viajou a noite toda e foi marchar na esplanada porque é "um idealista". "Queremos saúde, emprego, uma nova alternativa para o País."
Pintado, de bermuda e colares, o índio José de Santa, nação xukurus, representava a aldeia, que fica em Pesqueira (PE) e sobrevive do plantio de milho, mandioca e verduras. Veio numa caravana, com 42 membros de sete povos indígenas de Pernambuco. Parte da pintura desbotou na viagem. Santa estava indignado. "Vim engrossar a fila dos que são contra FHC", disse. "Ele está vendendo nosso país." "Estamos aqui contra o desemprego, a fome, a miséria e a política neoliberal de FHC", disse a técnica de laboratório Nelita de Souza Matos, de 43 anos, repetindo o que lera num panfleto. Ela mora em Brasília e estava com o rosto pintado com tinta guache. "Pelo menos ele (o presidente Fernando Henrique) vai saber que a gente não está contente", disse Lionina Rodrigues Moreira, de 49 anos, que veio de Vitória.
Equilibrando-se em pernas de pau, o palhaço Cassarola, de Natal, passou pelo motoboy Hélio Pires, de São Paulo. Meio bêbado, Pires balançava uma bandeira e a si próprio à beira do "laguinho de ACM", em frente ao Congresso. "Vim dar uma força a esse povo brasileiro sofrido." Depois, contou que fizera a viagem de graça, por conta da Central Única dos Trabalhadores (CUT). "Ainda ganhei dez reais mas não bote isso que zoa eles." Quando a marcha ainda nem tinha saído, alguns estudantes de Duque de Caxias, no Rio, decidiram fazer um piquenique no gramado do Congresso, o mais perto possível da fila de policiais. Estenderam a bandeira e fizeram sanduíches de atum e mortadela dizendo gracinhas aos PMs. "Hoje é o dia do desabafo", disse Elivelton Batista Lima, de 21 anos.
"Aproveitamos a democracia para tirar uma onda com os caras." Brasília não causou uma boa impressão aos garotos. "É a cidade do barro vermelho, cheia de mato seco e uma luxúria (sic) que a gente vê e não pode participar", comentou Alexandre Pereira da Silva, de 22. "Esse presidente não tem nexo, como um reitor que não foi eleito pelos alunos!" Fábio Velasco, de 17 anos, contou que é "totalmente contra a privatização da educação, da saúde e das rodovias".
Com as roupas rasgadas e cheias de tachas, lenços cobrindo metade do rosto, olheiras profundas, banho vencido e sem identidade, os punks estavam na Esplanada em grande número.
"Somos livres, não confiamos no voto, que gera corrupção", disse Pardal, de 18 anos. "Votamos nulo", acrescentou Lagartixa, de 20. "Somos jovens pobres da periferia do mundo inteiro", informou Satan.
Antonio Francisco dos Santos, de 57 anos, "o politizador de Campinas", fazia discurso usando um megafone. "Vamos invadir!", incitava o artista plástico Julimar Brito, do Recife, depois de dar um mergulho no lago do Congresso e ensopar a fantasia de guerrilheiro que vestia sobre um paletó surrado. De coroa, cetro e manto estampado de girassóis, Fernando Moura, de 72 anos, dizia que estava "reinaugurando" Brasília.
"Parece Woodstock", comentou o estudante Alexandre Alves, de 20 anos, com camisa do Black Sabath, vendo as pessoas deitadas na grama, tocando violão e namorando sobre as bandeiras. "O poder está aqui fora", disse.
"Faltou só o som psicodélico de Jimmi Hendrix." Por volta das 14 horas, depois de passear entre sindicalistas, professores, pagodeiros, capoeiristas, índios, gente com bandeiras de Che Guevara e camisas do Sepultura e de ouvir todos os discursos, a estudante Camila Freitas concluiu que "política é uma coisa estranha". "Houve manipulação, mas valeu, foi bonito o povo na rua reclamando."


