Natal - Abaixo a igualdade e viva a diferença! Cérebros de homens e mulheres são tão diferentes que até mesmo medicamentos como ansiolíticos, por exemplo, podem funcionar melhor em uns do que em outros. A médica Maria Bernardete Cordeiro de Souza, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), pesquisa as diferenças nos cérebros de machos e fêmeas desde 1989, usando o Callithrix jacchus, nome científico do nosso sagui.
Em sua apresentação ontem, no 1º Simpósio de Neurociência, em Natal, Bernardete falou sobre os mecanismos que produzem essas diferenças, ainda no estágio embrionário, e de suas implicações para áreas que vão desde a medicina até a otimização da reprodução em cativeiro de espécies ameaçadas de extinção.
''Nossos cérebros, nossas emoções são diferentes'', diz a pesquisadora. Bernardete explica que as diferenças entre machos e fêmeas - que os cientistas chamam de dimorfismos - surgiram ao longo do processo evolutivo também como resposta às pressões e estresses ambientais. ''São adaptações que dizem respeito às sensações e percepções e à sexualidade e reprodução'', explica, citando como o exemplo o fato de que em várias espécies machos e fêmeas têm não apenas tamanhos diferentes como aparência bastante diferente. É o caso dos babuínos, em que os machos são maiores e apresentam coloração viva nos focinhos.
Sabe-se hoje que ainda no útero materno os embriões do sexo masculino sintetizam testosterona e que este hormônio tem efeito na organização do cérebro em desenvolvimento. ''A testosterona deixa de ser sintetizada no nascimento e só volta na puberdade, quando vai ativar várias características do organismo e também influenciar as emoções'', conta.
Foi a evolução, por exemplo, que fez com que o cérebro dos homens tivesse uma maior capacidade de discernimento espacial. ''O macho precisava saber se orientar, para perseguir a caça e voltar para casa'', conta.
Já o cérebro da mulher tem maior capacidade de discernimento verbal. ''Isso tem a ver com sua necessidade de criar filhos, de precisar distinguir um choro de fome do choro de dor de um bebê, algo que elas preservam até hoje.'' O cérebro feminino, diz ela, tem maior plasticidade que o do homem e, em caso de lesão, como a provocada por um derrame, tem mais chances de recuperação.
Machos e fêmeas também reagem de forma diferente a situações de estresse. No caso dos saguis, por exemplo, as fêmeas reagem melhor a situações de separação do grupo. ''Na natureza, as fêmeas trocam de grupo, enquanto os machos não. Esse tipo de conhecimento nos ajuda a planejar estratégias melhores de reprodução em cativeiro de parentes do sagui ameaçados de extinção, como o mico-leão-dourado'', explica.
Para os cientistas da área, uma das grandes perguntas hoje é quais os fatores que determinam a diferente estruturação do cérebro de machos e fêmeas. Uma pesquisa alterou os cromossomos XX de ratas para apresentar a sequência SRY, que contém os genes que codificam testículos e a testosterona, e removeu esta mesma sequência dos cromossomos XY dos machos. As células foram expostas aos mesmos hormônios e, ainda assim, apresentaram diferenças significativas.
''Esse experimento, feito no exterior, mostra que além dos genes dos cromossomos sexuais e do regime hormonal, há outros fatores, que ainda não conhecemos, que determinam as diferenças nos cérebros de machos e fêmeas.''

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