Você anda estressado no trabalho? Com problemas na família? Sofreu uma perda recentemente? Cuidado. Esses são fatores que podem levar ao enfarte. Uma pesquisa publicada na revista The Lancet, uma das mais conceituadas da área médica, mostrou que eles podem ser até mais preocupantes que os tradicionais fatores de risco - obesidade, diabetes, hipertensão e dislipidemia (alteração no colesterol).
  Segundo o cardiologista Ricardo José Rodrigues, de Londrina, a pesquisa mostrou que situações de estresse podem levar rapidamente o entupimento da artéria de uma fase crônica para a aguda. ‘‘Pode acontecer em menos de 15 dias’’, ressalta. Isso, aponta o médico, explica aqueles casos de pessoas que fizeram exames recentes, que apontaram pouco entupimento das artérias, mas que sofreram enfarte pouco tempo depois. Provavelmente o caso do humorista Bussunda, que morreu vítima de um enfarte durante a Copa da Alemanha.
  O cardiologista explica que tudo começa com a aterosclerose, ou a deposição de gordura nas artérias. A doença é progressiva, e pode começar ainda na infância. Mas, segundo o médico, o corpo também vai se adaptando e pode haver situações em que há uma grande quantidade de placas de gordura, mas sem obstrução da artéria. Mesmo com uma obstrução de 50% da artéria, aponta Rodrigues, ainda há espaço suficiente para passar sangue.
  Com a artéria parcialmente entupida, explica o médico, o caso pode evoluir de duas maneiras - pode permanecer no mesmo estágio crônico, com algumas manifestações de que já há problemas, como quando a pessoa sente dores no peito, quando caminha, e melhora, quando pára.
  A outra situação, aponta Rodrigues, é a evolução rápida da fase crônica para a aguda, com obstrução de 100% da artéria, enfarte e possivelmente morte súbita. O cardiologista explica que quando a placa de gordura se rompe ocorre uma reação inflamatória capaz de desenvolver um coágulo, que é o que vai obstruir a artéria. O tempo de formação desse coágulo é de cerca de 15 dias. Mesmo placas pequenas, que não são diagnosticadas por cateterismo (procedimento em que se introduz um catéter para avaliar e desobstruir artérias), podem ter essa reação.
  O que a pesquisa publicada em 2004 na revista The Lancet mostrou é que situações de estresse aumentam em 2,6 vezes as chances de formação desse coágulo e de um evento cardiovascular - mais que o diabetes (2,3 vezes mais chance), que a hipertensão (1,91) e que a obesidade abdominal (1,62), ficando atrás só do tabagismo (que aumenta em 2,8 vezes mais as chances) e o colesterol alto (3,25 vezes). O estudo, desenvolvido durante quatro anos, acompanhou 15 mil casos de enfarte e 14 mil de casos controle.
  Desadaptação no trabalho ou em casa, quadro depressivo no último ano, falência ou uma grande perda, como a morte de um parente próximo, são consideradas algumas das situações de estresse que aumentam a chance de levar a obstrução da artéria da fase crônica para a aguda.
  Mas nem tudo é má notícia, a pesquisa mostrou também que é possível reverter os casos crônicos - ao parar de fumar, passar a comer frutas e verduras diariamente, e com a prática de exercícios físicos, se consegue diminuir as chances de um enfarte em 80%.

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