São Paulo, 05 (AE) - Grandes grupos estrangeiros, como Telefónica, Iberdrola, EDP, Endesa, Enron, America Online e Lucent, que, juntos, investiram no País pelo menos US$ 1,5 bilhão em 1999, vão continuar a ampliar suas atividades neste ano, com a aquisição de novas empresas em leilão, construção de fábricas, aumento das existentes e, principalmente, com a elevação da participação em companhias das quais já são acionistas.
Embora algumas não divulguem o valor previsto dos investimentos, economistas calculam que a soma dos recursos que entrarão no País no ano 2000, incluindo os da privatização, deve alcançar US$ 22 bilhões. Segundo dados do Banco Central, os investimentos diretos estrangeiros que entraram no País em 1999 somaram quase US$ 30 bilhões, ou seja, bem acima dos US$ 26 bilhões previstos ao longo do ano.
O economista-chefe do Banco Santander, Dany Rappaport, acredita que o valor dos investimentos externos em 2000 seja menor que os do ano passado, mas isso não significará desinteresse dos investidores. "As empresas brasileiras não vão precisar buscar tantos recursos no exterior por meio da venda de ativos."
A espanhola Endesa, maior multinacional do setor de energia elétrica da América Latina, investiu, em 1999, US$ 300 milhões em um projeto de importação de energia elétrica da Argentina.
Juan Madrigal, diretor da Endesa no Brasil, diz que, neste ano, a empresa investirá mais US$ 300 milhões em um projeto semelhante de importação de energia da Argentina. Por enquanto, em ambos projetos, a empresa está trabalhando sozinha, mas estuda sociedade com a Companhia Energética do Paraná (Copel).
"Além disso, até 2001, planejamos investir outros US$ 150 milhões em uma usina de geração de energia termoelétrica no Ceará", afirma Madrigal. A Endesa já tem participação na Companhia de Energia Elétrica do Ceará (Coelce), desde 1998, e nas Centrais Elétricas de Cachoeira Dourada, em Goiás, desde 1997.
A norte-americana Lucent, do setor de telecomunicações, deverá completar o investimento de US$ 50 milhões previsto para a conclusão da fábrica de cabos ópticos, em Campinas, no primeiro trimestre do ano. "Nos últimos três anos, a empresa investiu US$ 150 milhões na compra de equipamentos e instalações no Brasil", diz Virgílio Martins, diretor de Marketing da Lucent.
Em 1999, a Lucent adquiriu as empresas brasileiras Batik e Zetax (valores não divulgados). Embora não informe o faturamento no País, a empresa já fechou contratos no valor de US$ 1 bilhão desde o início da privatização do setor de telecomunicações.
O interesse da portuguesa EDP, que adquiriu a Bandeirante de Eletricidade (de São Paulo) em 1998, vai concentrar-se, a partir de agora, na privatização do setor de saneamento. Para participar dos leilões no ano 2000, a empresa já criou a EDP águas e a EDP Thames Water.
A subsidiária EDP Brasil também investirá R$ 35 milhões na construção da Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães, no Rio Tocantins, em sociedade com o Grupo Rede. "O foco de atenção da EDP está no Brasil", afirma Luiz Roberto dos Santos Pinto, diretor-financeiro da EDP no Brasil. Além disso, a EDP está atenta aos ativos da Cesp (São Paulo), Celpe (Pernambuco) e Ceal (Alagoas), que poderão ser leiloadas no ano 2000.
Embora não deva trazer recursos da matriz, como o fez nos últimos anos, a espanhola Telefónica praticamente lidera o ranking de volume de investimentos estrangeiros. Até 1998, a empresa, sozinha (sem contar seus sócios nos empreendimentos), investiu R$ 7,2 bilhões (incluindo a compra dos ativos da Telesp) e, em 1999, mais R$ 1,5 bilhão para a ampliação da infra-estrutura da rede de telefonia no Estado de São Paulo.
Em 1999, a Telefônica também fez investimentos através do aumento de capital e compra de ações no mercado para aumentar sua participação nas empresas que adquiriu, no valor de R$ 1 bilhão. "Para o ano 2000, vamos reinvestir os recursos da propria Telefônica no Brasil e deveremos superar os R$ 3,6 bilhões realizados em 1999" , informa Charles Putz, diretor de Controle de Gestão da holding Telefónica.
Incluindo os parceiros Banco Bilbao Vizcaya, Portugal Telecom e Iberdrola, o volume de recursos estrangeiros alocados até 1998 chega a R$ 12,5 bilhões e, no ano de 1999, a R$ 2,2 bilhões. "Em número de novas linhas instaladas, estamos quase um ano à frente do previsto no contrato de privatização", diz Putz.
A America Online iniciou as atividades no País em novembro e acredita crescer rapidamente no mercado de provedores e transmissão de dados via Internet.
Segundo Charles Herington, CEO e presidente da AOL Latin America, a empresa reserva US$ 200 milhões para investir em sua chegada na América Latina. Desses, 40% deverão ser destinados ao País. "O lançamento no Brasil apresentou um dos melhores resultados do mundo", diz Herington.
A espanhola Iberdrola, grupo do setor de energia elétrica, possui participação na Companhia de Energia da Bahia (Coelba), Companhia Energética do Rio Grande do Norte (Cosern), Itapebi Geração de Energia, Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) e empresas de telefonia celular, mas não descarta a possibilidade de aumentar a atuação no Brasil.
"Tudo vai depender das privatizações que forem realizadas neste ano", diz o diretor-presidente, Andrés Bartrina. Em 1999, a empresa investiu US$ 110 milhões, além de US$ 1,9 bilhão que já havia sido destinado a essas empresas em 1997 e 1998.
Para o economista Antonio Correa de Lacerda, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), os investimentos estrangeiros são muito bem vindos, mas podem criar um problema adicional para as contas externas no futuro.
Isso porque as empresas que se estão instalando agora no País deverão, dentro de alguns anos, remeter lucros para o exterior, o que representará maior volume de divisas que deixarão o País. "Para não ser pego de surpresa, o governo terá de estimular o superávit comercial para compensar o provável desequilíbrio", diz Lacerda.

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