Rio, 11 (AE) - A inglesa Christine Stevenson jamais imaginou que, ao vir para o Brasil como principal executiva da companhia National Power, do ramo de eletricidade, teria como atribuição aprender a sambar para entender melhor os brasileiros. Foi isso que ela fez e vai aproveitar o que aprendeu nas aulas do curso de Samba no Pé, de Jaime Aroxa, para evoluir na Mangueira, na segunda-feira de carnaval. Christine só não garante que vai arrasar na pista: "Eu até consigo seguir os passos, mas soltar o corpo como os brasileiros é dificílimo", justifica-se. "É uma questão cultural". Christine veio ao Brasil a trabalho, mas dezenas de turistas procuram aulas de samba no pé para não fazer feio nas quadras de ensaio das escolas de samba ou no desfile do Sambódromo. Que o diga o professor Antônio José, que há quatro anos mantem contato com agências de viagem e já formou quase dez turmas em cursos de um mês em sua academia num hotel de Copacabana. "Eles não faltam a uma aula sequer e ficam felizes da vida com o diploma que recebem", conta ele.
Antônio José já sabe até dizer quem tem mais jeito para a batucada. "Os alemães são mais duros e os espanhóis têm certa ginga, mas quem supreende são os russos, que aprendem rapidinho a sambar", enumera o professor, que ontem à noite formou sua última turma deste ano, com vários alemães e portugueses. "Só dou aula de samba no pé no verão porque os turistas chegam, aprendem e vão embora", explica. "Os brasileiros preferem dança de salão e são mais fiéis, não faltam nunca." Jaime Aroxa faz coro com Antônio José: "O meu curso tem 12 aulas, mas as turmas começam enormes e terminam pequenas porque a maioria abandona quando acha que já sabe sambar", diz Aroxa, que começou com 80 alunos e hoje terminou com 40. "Só os mais inibidos, que demoram mais a se soltar ficam até o fim, mas eu insisto até conseguir fazer um sambista".
A produtora de moda Eva Carrijo confirma a história de Aroxa. Ela nasceu em São José do Rio Preto, morou boa parte da vida em Los Angeles e agora, de volta ao Brasil há seis meses, resolveu aprender a sambar e porque se sentia muito inibida. "Lá em Los Angeles a gente vai a ballrooms para dançar salsa, merengue, mas raramente samba", conta Eva.
E Chirstine faz completa: "Na Inglaterra ninguém conhece samba, só um pouquinho de Bossa Nova, mas acho que o Brasil devia divulgar mais sua música porque tenho certeza de que os ingleses adorariam sambar em vez de dançar disco".
Eva, Christine e outros estrangeiros sabem perfeitamente que não conseguem a performance de um brasileiro, que ouve e dança samba desde criança. Mas no caso de Christine, além de ter cumprido seu objetivo de entender melhor o modo de pensar do Brasil, ela descobriu outra utilidade para as aulas de samba no pé. "Na verdade, quando tento soltar meu corpo no samba estou trabalhando também a mente e, por isso, digo a todo mundo que o Jaime Aroxa, meu professor, é também meu psicoterapeuta", conclui ela.

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