Curitiba- A utilização de estrangeirismos em estabelecimentos comerciais motivou pronunciamento recente do Ministério Público Federal de Guarulhos (SP). Segundo a procuradoria, o uso de expressões como ''off'' e ''sale'', comuns nas vitrines de lojas em grandes cidades brasileiras, seria discriminatório, pois boa parte da população não fala inglês.
O Código de Defesa do Consumidor proíbe a utilização de termos de língua estrangeira no comércio. Diz o artigo 31: ''A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidade, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores''.
''O consumidor pode procurar o Procon para reclamar sobre uso de estrangeirismos em lojas. O órgão pode fazer uma advertência para adequação à conduta em determinado prazo. Caso a situação não seja regularizada, o comerciante pode ser multado'', afirma Marta Favreto Paim, advogada do Procon do Paraná.
Bernadete Zagonel, vice-presidente da Associação Comercial do Paraná (ACP) e coordenadora da Universidade Livre do Comércio, se diz contrária aos estrangeirismos nas lojas. ''Eles não são necessários. Temos todos os termos equivalentes em português. Os estrangeirismos até prejudicam o consumidor, porque muita gente não entende o que está escrito'', critica Bernadete, que também é professora do Departamento de Música da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
''O brasileiro gosta muito de estrangeirismos, do que vem de fora. Em várias áreas. Os portugueses e os franceses, por exemplo, traduziram todos os termos em informática. Nós usamos 'mouse'. A incorporação de termos estrangeiros é natural na língua. Mas acho que no Brasil a influência norte-americana é excessiva. É só ver os nomes das lojas, muitos em inglês'', opina.
A professora do Departamento de Linguística, Letras Clássicas e Vernáculas da UFPR, Lígia Negri, define: ''O uso de termos em inglês no comércio seria uma tentativa de adesão, de querer parecer alinhado a uma sociedade global. É mais uma estratégia de venda''.
Para ela, os estrangeirismos no comércio não representam uma ameaça ao sistema linguístico português. ''Uma ameaça seria a submissão ao modelo norte-americano, de grande interferência na nossa cultura. Muita gente no Brasil já comemora Halloween, por exemplo. Mas para que essa interferência influencie a língua de forma significativa, demora muito mais tempo. Isso só aconteceria numa situação de descaracterização quase total da nossa cultura. Porque a língua é sempre o último item da identidade cultural a ser descaracterizado'', explica a professora.

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