Jerusalém, 5 (AE-AP) - Ayman Lubedeh não visita sua casa há seis anos. Seus pais e seis irmãos moram na Faixa de Gaza e ele trabalha num hospital na Cisjordânia. Israel não permite que Lubedeh, de 29 anos, atravesse seu território para ir a Gaza, alegando questões de segurança. Seu contato com a família é feito através de ligações telefônicas.
Isso deve mudar logo, agora que Israel e os palestinos concordaram em criar uma estrada entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. A estrada, de 47 quilômetros, possibilita aos palestinos viajar com relativa liberdade entre duas áreas que estão sob seu controle e revitaliza os projetos para um eventual futuro Estado.
Os negociadores israelenses e palestinos assinaram hoje um acordo referente ao modo de operação da chamada "passagem segura", que deve abrir na próxima semana. Apesar das disputas de última hora e dos atrasos - a estrada deveria ter sido aberta na semana passada - , ambos os lados dizem que o acordo melhora as relações depois de três anos de paralisação.
Sholomo Ben-Ami, o negociador israelense, afirmou que "o espírito de confiança mútuo" pode agora ser restabelecido. "Isso é exatamente o que Arafat me disse ontem", afirmou.
A estrada é parte do último acordo interino alcançado em setembro, que também estabelece que Israel deve devolver 11% da Cisjordânia ao governo palestino e libertar 350 presos políticos, em troca de medidas de segurança por parte dos palestinos.
Israel anunciou hoje que libertaria o segundo grupo de prisioneiros - 151 - até quinta-feira, um dia depois do acordado.
A passagem segura liga pela primeira vez duas áreas que os palestinos esperam declarar independentes, partes do tão desejado Estado palestino. A estrada torna tal entidade muito mais viável. Ela também dá aos palestinos, especialmente àqueles que vivem em Gaza - 1 milhão - muito mais liberdade de movimento.
Até agora os passes de viagem eram difíceis de obter e normalmente valiam por apenas alguns dias. Grande número de pessoas não podia requerer os passes, incluindo jovens, homens solteiros e aqueles suspeitos de atividades anti-israelenses.
Sob o novo acordo, qualquer um em princípio pode ter acesso aos passes, embora Israel mantenha o direito de recusar requerentes. Ex-detentos palestinos, detidos por questões de segurança, que no passado não poderiam jamais fazer tal trajeto, podem agora viajar duas vezes por semana em ônibus especiais, escoltados pela polícia israelense.
Os palestinos também terão pela primeira vez permissão de viajar com seus próprios carros. A estrada, que sai da cidade de Tarkoumiya, na Cisjordânia e vai até o cruzamente de Erez, na Faixa de Gaza, estará aberta diariamente das 7 da manhã até as 5 da tarde. Os palestinos podem requerer passes à Autoridade Palestina, que deve em seguida aprsentar os nomes a Israel para aprovação final. As permissões terão validade de um ano, disse um oficial palestino.
Durante as conversações do acordo da passagem segura, os palestinos mostraram-se preocupados com o fato de que Israel poderia usar a estrada para capturar palestinos procurados. Segundo o negociador palestino, Jamil Tarifi, Israel assegurou aos palestinos que enquanto sua soberania não estivesse ameaçada, o país não tentaria prender ninguém na estrada.
Lubedeh, que trabalha como enfermeiro na cidade de Ramallah, disse que antes de pedir sua permissão vai esperar para ver como as coisas andam. "Não quero correr o risco de perder meu trabalho e deixar minha mulher e meu filho no caso de Israel não deixar que eu volte à Cisjordânia.
Ele visitou seus pais pela última vez em Gaza em 1993 e depois teve dificuldades para obter uma permissão para voltar à Cisjordânia. Desde então, Israel nega todos os seus pedidos de passe, aparentemente porque ele foi detido várias vezes entre 1987- 1993, nos levantes contra a ocupação israelense. Ainda assim seus pais estão felizes com a possibilidade de reunir a família e estão planejando uma outra festa de casamento para o filho, já que não puderam ir à primeira cerimônia, há dois anos.
Enquanto isso, um outro palestino que mora em Hebron, próxima de Tarkoumiya, disse que temia uma invasão de palestinos de Gaza na Cisjordânia, em busca de emprego, o que colocaria o seu próprio emprego em risco. "Sei que somos um só povo, mas quando se trata de dar pão para sua família, a história é diferente", confessou.

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