Estilista soropositivo acusa seita de discriminação
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quarta-feira, 09 de junho de 1999
Por Felipe Werneck 
Rio, 10 (AE) - No fim de fevereiro, o estilista Albino Ursulino da Silva Filho, de 37 anos, procurou a seita de origem indiana Sahaja Yoga em busca de "evolução espiritual". Quase quatro meses depois, na segunda-feira, foi surpreendido pela notícia de que não mais poderia participar das reuniões realizadas na sede carioca da organização, em Laranjeiras, na zona sul da cidade. O motivo: Albino é portador de HIV e, portanto, "sua vibração provocaria uma interferência energética no ambiente", alega um dos dois coordenadores da seita, o programador de softwares Edmundo Pinheiro, de 42 anos, que há oito participa do movimento.
Três dias antes de ser impedido de frequentar o grupo, o estilista recebeu um manual de "tratamento" de aids, baseado em conselhos que seriam da líder mundial da Sahaja Yoga, a indiana Shri Mataji Nirmala Devi. Na seção de "observações importantes", o manual recomenda: "Os Sahaja Yogis não devem ir à casa das pessoas portadoras de aids nem estas devem frequentar a casa dos Sahaja Yogis."
Ainda de acordo com as recomendações da seita, "as vítimas de aids devem consumir ouro, sob a forma de cinza". De acordo com Pinheiro, o ser humano tem um sistema interno que pode ser prejudicado energeticamente e, segundo ele, a aids requer esse tratamento "especial porque afeta o muladhara, "um centro básico que sustenta todos os outros".
Albino diz que chegou a realizar alguns dos exercícios indicados pelo manual - como, por exemplo, sentar com a mão direita apoiada sobre o chão e a mão esquerda em direção à foto de Shri Mataji, cantar mantras com a mão no coração repetindo a frase "Mãe, por favor, entra em meu coração", acender velas e meditar -, mas ficou "chocado" quando foi impedido de participar das reuniões. "Foi um impacto, uma decepção total."
Interpretação - Segundo Pinheiro, Albino "nunca foi afastado", apenas "tem pouco tempo para frequentar a casa" e, portanto, só poderia participar dos atos públicos realizados pela seita. "Acredito que ele tenha se sentido rejeitado por algum motivo, mas estamos abertos para o diálogo, porque essas recomendações não são inflexíveis, dependem de interpretação."
O estilista acredita que os dirigentes da seita tenham tomado conhecimento de que ele era soropositivo por meio de um vizinho seu - a mesma pessoa que lhe apresentou a Sahaja Yoga. "Dizer que a aids é transmitida também por vibrações é uma forma disfarçada de preconceito", afirma.
"Eu me identificava com eles, mas agora quero um esclarecimento maior sobre essa questão e não sei até que ponto o fato de eu ser negro influenciou na decisão." Albino também critica o fato de a seita estimular a "cura da aids" por meio da técnica de energização.
Culto - O líder da Sahaja Yoga, o professor de física Eduardo Marino, teria viajado hoje para Nova York, onde participaria de um encontro com Shri Mataji. "Nosso trabalho é de autocura, que busca o interior do ser, e existem grupos em outros seis Estados e 80 países do mundo", diz Pinheiro.
Ele afirma que, no Rio, os encontros reúnem semanalmente cerca de 70 pessoas (homens, mulheres e crianças) e os eventos abertos ao público, cerca de 200.
De acordo com o artigo 20 da Lei n.º 9.459/97, os dirigentes estão sujeitos à pena de reclusão de 1 a 3 anos e multa, caso seja comprovada a prática de ato discriminatório. Está programada para amanhã (11), às 19h30, a realização de um culto no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Albino disse que vai participar do culto, mas, desta vez, para protestar.


