Um ano depois do início de uma das maiores secas do século, o sertão nordestino ainda continua sofrendo com a estiagem que atingiu diretamente 24,7 milhões de pessoas e causou um prejuízo incalculável. A produção agrícola na região caiu 25,5%, o equivalente a R$ 1,8 bilhão, podendo chegar, até o início do inverno, a R$ 2,1 bilhões. A Paraíba e Pernambuco continuam sofrendo com a falta de chuva, aumentando o drama do sertanejo que não se arrisca a plantar, passa fome e sede e vai perdendo, aos poucos, o que conseguiu com dificuldades.
Em várias regiões da Paraíba, principalmente, a situação de miséria é visível, já que o atendimento do governo não atinge todas as vítimas da seca. Segundo estimativas da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), há 109,3 mil pessoas alistadas nas frentes de trabalho, garantindo a circulação de R$ 9,5 milhões mensais, insuficientes para diminuir a miséria reinante na região.
Em quase todos os municípios do Nordeste, existem reclamações sobre o fornecimento de cestas básicas. As comissões municipais formadas pelo governo para fiscalizar e garantir a isenção na entrega de alimentos estão diluídas. Em São Vicente do Seridó, na Paraíba, por exemplo, a comissão não se reúne há vários meses e muitos de seus membros não participam mais da coordenação. ‘‘Aqui a coisa foi politizada’’, denuncia o vereador Pedro Berto (PFL), ex-integrante da comissão.
Apesar da seca, o Nordeste cresceu economicamente em 1998. Houve elevação na área industrial e comercial, criação de empregos e melhorou o desempenho na produção agrícola das culturas emergentes, como as frutas. Mas o crescimento se deu em algumas áreas da região, mantendo o sertão isolado dos benefícios econômicos e do investimento social.
Segundo dados da Sudene, a produção de frutas cresceu significativamente no Vale do São Francisco, em Pernambuco. Os grandes projetos de irrigação existentes, que permitiram esse avanço, não beneficiam sertanejos, mas apenas grandes grupos exportadores. Enquanto isso, no sertão da Paraíba, a situação é totalmente inversa. ‘‘Aqui, a única água que temos são pingos de chuva de vez em quando’’, diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cajazeiras (PB), Rigoberto Soares de Farias. Só a Paraíba perdeu 58,6% de sua safra no período da seca.
Outros segmentos industriais foram responsáveis pelo crescimento de 5,11% da economia e geração de mão-de-obra especializada. Isso, porém, não atingiu o sertão, que se mantém com os recursos das frentes de trabalho, uma forma encontrada pelo governo para gerar renda para as pessoas atingidas pela seca. ‘‘Elas não existem, é um paliativo’’, diz o prefeito de Soledade (PB), Fernando Araújo Filho. ‘‘Se não houver outro meio, o sertanejo sempre vai viver desta forma e nunca vai produzir nada’’, acrescenta Araújo.
Durante o período da seca, a Sudene procurou inovar no atendimento aos flagelados, não só distribuindo cestas e alistando pessoas nas frentes de trabalho, mas criando alternativas para o enfrentamento de futuras estiagens.
Em várias partes do sertão, houve programas de alfabetização e profissionalização. A falta de prática das prefeituras, porém, deixou muitas pessoas de fora. ‘‘Nem sabia que tinha gente ensinando a ler e escrever’’, diz Antônio Manoel dos Santos, que mora na zona rural de São Vicente do Seridó. Hoje, o Nordeste está dividido em dois, onde o sertão aparece como um mundo à parte. ‘‘É uma mancha negra numa folha branca de papel’’, diz o superintendente da Sudene, Aloísio Sotero. ‘‘Temos e vamos ter que dar outro tratamento ao semi-árido’’, ressalta.

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