Estefani, a Elián esquecida Da enviada especial Mônica Yanakiew
Miami, 05 (AE) - Como vem fazendo, há quatro meses, as câmeras de televisão registraram hoje (05) os movimentos de Elian González. O menino cubano de seis anos, que sobreviveu a um naufrágio em novembro passado, brincou no quintal do tio-avô, Lázaro González, em Miami. Depois recebeu uma dúzia de mulheres, que organizaram mais uma peregrinação à casa onde a criança espera que seus parentes, um exército de advogados, e os governos dos Estados Unidos e de Cuba decidam seu destino. Enquanto a batalha judicial pela custódia de Elian ocupa as primeiras páginas de jornais do mundo inteiro, Arrianne Horto Alfonso, de 22 anos, passa a vida desapercebida. Ela vive discretamente no estado da Flórida, com o namorado Nivaldo Fernandez Ferran. Em Cuba, ninguém fala da sua filha Estefani, de cinco anos, que está sendo criada pela avó Elsa Alfonso, longe da mãe.
Arriane e Nivaldo fugiram de Cuba para os Estados Unidos no último dia 21 de novembro, no mesmo barco que Elián. Os três foram os únicos sobreviventes de uma travessia, na qual morreram onze pessoas - entre elas a mãe de Elián, Elizabet Brotons Rodriguez, e o padrasto do menino, Lazaro Muñero Garcia.
Estefani também chegou a embarcar. Poderia ter sido a décima-segunda vítima do naufrágio ou outro milagre, como Elián, que a comunidade cubana em Miami considera ser um enviado da Virgem Maria e de Iemanjá, para combater a ditadura de Fidel Castro em Cuba.
"Castro diz que Elián deve voltar para Cuba para ficar com seu pai, Juan Manuel González, mas isso é apenas uma desculpa", assegura Rafael, um dos macumbeiros cubanos em Miami. "A criança é o talismã que assegurará a continuação de seu governo. Se o menino permanecer nos Estados Unidos, como quer o tio-avô, todos os seus caminhos serão fechados", garante.
Quem protegeu Estefani foi sua própria mãe. Mal partiram rumo aos EUA, o motor do barco, construído pelo padrasto de Elián, parou. O grupo voltou para a praia para consertá-lo, para tentar uma segunda fuga. Mas Arriane achou que a travessia seria arriscada demais e optou por deixar sua filha na casa da sua mãe.
Nos EUA, onde já conseguiu trabalho, Arriane evita os jornalistas para não prejudicar sua família em Cuba. Há três meses, ela concedeu uma entrevista para relatar sua fuga e como, a pedido de Elizabet, ela deu sua última garrafa de água para Elián, antes que a mãe do menino morresse afogada.
Hoje, Gregory Craig - um dos advogados que defenderam o presidente dos EUA, Bill Clinton, no processo de impeachment e que agora voltou a ser o centro de atenções, representando os interesses do pai de Elián - disse que seu cliente deve desembarcar em breve em Washington, para reclamar a custódia do filho. Mas ele só marcará a viagem depois de saber os resultados das negociações entre os advogados de Lazaro González (que recorreu à justiça americana para manter a criança em Miami) e o governo americano (que quer repatriar o menino).
Amanhã, as negociações - que já duram cinco dias e foram interrompidas hoje - serão retomadas. Enquanto a longa batalha judicial pela custódia de Elian continua sendo acompanhada pela imprensa mundial e os candidatos às próximas eleições presidenciais americanas, Arriane está lutando sozinha por sua filha, para quem telefona sempre que pode.
Ela já pediu a ajuda de parlamentares americanos para trazer Estefani aos EUA, tão logo obtenha a residência americana. Mas em Cuba - onde Castro ergueu um monumento milionário para convocar as multidões que pedem a repatriação de Elián - a mãe de Arriane mantém a menina longe das câmeras.
Numa entrevista ao jornal "Miami Herald", Estela disse que nunca fala com a criança sobre a fuga de Arriane. E que não não pensa em enviar Estefani a Miami. "Ela é minha e está bem", insistiu. Ninguém, nos EUA ou em Cuba, está discutindo se o lugar de Estefani é com a mãe ou a avó. Por enquanto a menina está vivendo sua infância - talvez com menos conforto, mas certamente longe dos debates políticos e judiciais.





