Arquivo da famíliaCiclo de vidaCatafesta, quando trabalhava na Amazônia: construção de pistas de pouso, armadilha da DEA e sete anos e meio de prisãoAntes de envolver-se com o narcotráfico, o paranaense Clóvis Catafesta vivia de biscates na Amazônia. Em 20 anos na região, ele foi garimpeiro em Rondônia, pesquisou pedras preciosas para o governo, teve restaurante no garimpo e uma pequena empreiteira de obras - mas não deu sorte na selva.
Na empreiteira, Catafesta ganhou muita experiência construindo pistas de pouso para os aviões pequenos usados pelos garimpeiros, os mesmos que os narcotraficantes usam para transportar cocaína.
Daí para o tráfico foi um passo. Em Rolândia, ele conheceu os criminosos que o convidariam a entrar no negócio. Catafesta admite que aceitou construir pistas para traficantes, mas diz que foi por necessidade. ‘‘Eu já estava com 40 anos, tinha fracassado em todos os empreendimentos que tentara’’.
Em agosto de 1994, Catafesta pegou um contrato de um narcotraficante para construir uma pista no Chaco (região do Paraguai fronteiriça com a Bolívia), parte do que seria uma nova rota de drogas do cartel de Cali. O contratante era um informante da DEA. A encomenda total era de 3 mil quilos.
‘‘Eu estava precisando de dinheiro e caí direitinho’’, disse Catafesta. ‘‘Em setembro, minha pista estava pronta. Voltei para casa assim que terminei meu trabalho’’, lembra. Na ocasião, ele estava morando em Belém do Pará. O que ele não sabia é que estava sendo seguido pela DEA o tempo todo.
O aeroporto que ele construiu foi usado dias depois por traficantes dos cartéis colombianos para desovar 756 quilos de coca, apreendidos pela polícia paraguaia, na operação Madrejon. Ocorre que os traficantes tinham mandado apenas uma parte da encomenda - nos bastidores, eles estavam combinados com alguns policiais da Madrejon: se a primeira parte passasse, o resto viria depois.
‘‘Eu estava em casa e não sabia de nada do que estava acontecendo no Chaco. Foi quando recebi um telefonema de um dos envolvidos (ele não dá nomes), dizendo que a obra tinha um problema e que eu precisaria estar lá para resolvê-lo. Quando cheguei, o avião das drogas estava pousando: era uma armadilha. Mesmo assim, ninguém foi preso na hora. Tudo parecia normal’’.
Até hoje, Catafesta lamenta ter voltado: ‘‘Dias depois, quando desembarquei em Assunção, fui preso. Fiquei incomunicável 20 dias, período em que fui escolhido a dedo para ser o bode expiatório de uma rede que envolvia os cartéis colombianos, gente do Brasil, agentes corruptos da polícia paraguaia e da própria DEA’’, conta. ‘‘A tal de Madrejon era fria. Tudo passou por eles, até aviões com 3 mil quilos, só eu fiquei’’, conta. ‘‘A avioneta com 756 quilos foi só um aperitivo’’.
O general Rodriguez, chefe da polícia antidrogas paraguaia assassinado por membros de sua própria escolta poucos dias depois da prisão de Catafesta, queria soltar o brasileiro - a lei local não permite condenação obtida por meio de artimanhas como a usada pela DEA. Da cadeia, Catafesta pediu a intervenção do Itamaraty para obter um advogado, mas o governo brasileiro não quis se meter na confusão.
Os americanos decidiram então tirar Catafesta do país, antes que ele fosse libertado ou assassinado - um juiz local disse aos jornais que a vida dele não valia um centavo. Em janeiro de 1995, agentes da DEA, com o apoio das autoridades paraguaias, o levaram para Miami, via Santiago do Chile.
Na fase do processo americano, Catafesta outra vez pediu a intervenção do Itamaraty, para obter um advogado particular, também sem sucesso. Ele então optou por declarar-se culpado, num acordo com a promotoria, para pagar uma pena relativamente leve (7 anos e meio). ‘‘Era melhor do que enfrentar um júri hostil a estrangeiros e pegar 25’’, diz, resignado. Do total, ainda tem cinco anos e meio para cumprir. (R.A.O.)

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