Estatística esquece drama dos meninos que se tornam pais
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sábado, 14 de junho de 1997
Agência Estado Rio de Janeiro 
Arquivo FolhaExércitoNo ano passado, pelo menos 2,7 milhões de garotos brasileiros viveram a experiência de ser paisComo todo menino educado nos princípios tradicionais da família brasileira, o carioca Bruno da Silva Marinho, 16 anos, não brinca de boneca. O que então faz ele, ali, envolvido com fraldas, mamadeiras e chocalhos? A pequena e delicada Luísa, de quatro meses, seguramente não é de brinquedo. Com suas espinhas no rosto, o jeito meio desengonçado, a voz que acabou de mudar - Bruno é pai. Ele engrossa um número ignorado pelas estatísticas oficiais: o dos pais adolescentes. Embora haja vários estudos e pesquisas de órgãos governamentais e instituições privadas a respeito de gravidez na adolescência, a questão só é tratada sob o ponto de vista da mãe. O pai não aparece nem como figurante na história mais importante de seus poucos anos de vida.
Isso não surpreende, quando se pensa que, até pouco tempo atrás, um pai adulto trocando fraldas ou participando de reuniões de escola era uma figura exótica. A sociedade é matriarcal quando se fala de filhos, aponta o psiquiatra infanto-juvenil Christian Gauderer. O homem tem pouco espaço nesse campo: é rejeitado e alijado do circuito da gravidez, parto e educação nos primeiros anos de vida.
Gauderer, autor de estudos sobre a sexualidade na adolescência, está preparando um capítulo sobre o pai adolescente em seu próximo livro Crianças, Adolescentes e Nós, com lançamento para agosto, baseado na experiência em seu consultório no Rio.
Por essa observação empírica, os pais-meninos já formam um exército. Apenas para efeito de cálculo: as mulheres entre 10 e 19 anos foram responsáveis por 25,79% dos partos no Sistema Único de Saúde do ano passado, segundo o Ministério da Saúde. Se seus parceiros estiverem na mesma faixa etária, há pelo menos 2,7 milhões de garotos no Brasil viveram em 1996 a situação extrema de passar direto do joguinho de pelada ou do videogame para o mundo dos adultos. Minha mentalidade mudou completamente, atesta Bruno. Quero arrumar logo um emprego, para poder morar na minha própria casa, com minha mulher e minha filha.
Bruno conheceu Marina Ferreira da Silva, da mesma idade que ele, na escola. Começaram a namorar firme em janeiro do ano passado. A família do garoto, preocupada com um envolvimento tão forte num casal novinho ainda, o aconselhou a moderar o namoro. Quando procurei Marina para conversar sobre isso, ela me contou que estava grávida, conta ele. Fiquei desesperado e pensei em tirar a criança. Mas as famílias de ambos os lados garantiram que eles e o bebê teriam todo o apoio emocional e financeiro necessário - e, então, decidiram ter Luísa.
Dedicado, Bruno não se intimidou nem em dar banho na recém-nascida e, contrariando a prática de seu próprio pai, participa das atividades domésticas na casa de Marina, onde passou a morar desde que nasceu a filha. Casos como o dele, no entanto, não são regra geral. Como todo o foco da questão é na mãe, cria-se a condição propícia para que o menino caia fora, diz Gauderer. Ele permanece alheio ao processo e, muitas vezes, é considerado culpado e rejeitado pela família da moça.
Quando há o apoio dos pais - especialmente, do pai -, porém, o quadro muda de figura: o menino sente mais confiança para assumir tanto a criança quanto suas responsabilidades. Numa família em que a paternidade é considerada saudável e prazerosa, há mais chances de essa situação se resolver de forma melhor, avalia a psicóloga Claudia Oliveira, especializada em adolescentes.
A reação da família é o fiel da balança na maioria dos casos. Rafael Raison, 19 anos, sabia que seus pais eram radicalmente contra o aborto quando a namorada Angélica Galazi, da mesma idade, o avisou da gravidez. Sabia que iriam dar força para o bebê nascer, o que me deixou mais seguro para tomar uma decisão, conta ele, que tinha 17 anos quando André Guilherme nasceu. Angélica foi morar com ele na casa dos pais e, hoje, está grávida de cinco meses. Estávamos usando camisinha, mas eu bem que avisei a ela que não ia dar certo, resigna-se ele.
A reação de Rafael retrata como a anticoncepção é vista pelo adolescente. Refletindo a atitude geral sobre o assunto, a responsabilidade fica mais por conta da menina. O garoto conhece pouco sobre métodos contraceptivos e acha que a menina deve se cuidar, afirma a pediatra Evelyn Eisenstein. Há ainda o que chamo de pensamento mágico: o adolescente tende a achar que nada de ruim vai acontecer com ele. Foi embalado pelo tal pensamento mágico que Bruno prosseguiu na relação, mesmo quando Marina o avisou que estava em período fértil. Não achava que ia acontecer comigo, que era tão fácil engravidar.
Quando acontece, o adolescente, se decide continuar o namoro e assumir o filho, tem de encarar o fato de que ganhou um passaporte para a vida adulta. Ou seja: vira um pai de família, com filhos para sustentar, quando ainda está muitas vezes ainda usando uniforme escolar. Sob o impacto da gravidez de Marina, Bruno perdeu o ano escolar. Está repetindo a primeira série do segundo grau e se inscreveu para trabalhar no McDonalds. Rafael, que agora está cursando Administração de Empresas, já vendeu jóias e estagiou num escritório de contabilidade.


