Estados Unidos querem dividir responsabilidade global
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sábado, 20 de fevereiro de 1999
Por Flora Holzman 
Bonn, 21 (AE) - Os representantes dos países industrializados que integram o Grupo dos Sete (G-7), reunidos na Alemanha, abandonaram hoje (21) a idéia de criar um sistema montário global - similar ao mecanismo que assegura a paridade cambial nos 11 países que hoje já integram a União Monetária Européia - capaz de evitar as flutuações cambiais drásticas que prejudicam o comércio mundial e, consequentemente, o crescimento.
Os ministros das Finanças e os presidentes de bancos centrais de países industrializados cederam às pressões dos representantes norte-americanos, entre eles o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Robert Rubin, e o presidente do Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, e aceitam criar apenas uma comissão denominada Fórum de Estabilidade Financeira.
Esse comitê, segundo o presidente do Bundesbank alemão, Hans Teitmayer, ficará encarregado do intercâmbio entre as autoridades encarregadas da supervisão e da regulamentação financeira para permitir a avaliação de mecanismos futuros mais virtuosos na área cambial. A hipótese de adoção de instrumentos que pudessem impedir fortes variações cambiais entre as principais divisas dos países que integram o Grupo dos Sete (G-7), como defendiam o presidente francês, Jacques Chirac, e o ministro alemão das Finanças, Oskar Lafontaine, foi praticamente descartada ante a forte oposição das autoridades norte-americanas. Para Alan Greenspan, do Federal Reserve, "esse não é um tema da atualidade".
Pelas propostas que estavam sendo estudadas, as cotações seriam fixadas sem que as moedas pudessem afastar-se muito de uma certa porcentagem. Caso contrário, os bancos centrais poderiam intervir, ainda que utilizando as taxas de juros para trazer de volta as metas preestabelecidas. Os técnicos consideram ilusório imaginar uma estabilidade cambial entre divisas de países cujas economias não funcionam no mesmo ritmo, não aplicam as mesmas políticas orçamentárias e não possuem as mesmas estruturas, em outras palavras, não havendo convergências entre as moedas.
Entre as declarações de intenções, que costumam avançar pouco além do aspecto declaratório, Alemanha, França, Canadá, EUA, Japão, Grã-Bretanha e Itália, reconheceram ter "uma responsabilidade especial" em relação ao bom funcionamento do sistema financeiro e mundial internacional.
Todos comprometeram-se a cooperar estreitamente "para promover a estabilidade das taxas de câmbio entre as principais divisas, de modo a assegurar que as políticas cambiais estejam em linha com os fundamentos econômicos".
Sem resultados mais concretos, a divergência entre as duas facções - EUA e Europa - no que diz respeito aos mecanismos capazes de proporcionar uma aproximação entre os grandes blocos, ficaram aquém das expectativas. Também ficou claro no pronunciamento do secretário do Tesouro norte-americano durante o encontro do G-7, que os Estados Unidos se negam a assumir uma posição de locomotiva única da economia mundial.
O recado de Washington foi claro: europeus e japoneses devem reformar suas economias de modo a permitir a retomada e aceleração de crescimento, por meio da absorção de um volume maior de importações. Do contrário, ameaçou o secretário do Tesouro dos EUA, seu país "poderia não conseguir um crescimento tão vigoroso como no ano passado", pois o déficit comercial do país em 1998 atingiu o nível mais alto dos últimos dez anos: US$ 168,6 bilhões.
Fundos - A única decisão concreta extraída da reunião de ministros do G-7 na Alemanha foi a de acompanhar de perto a administração e o gerenciamento dos fundos hedge, considerados extremanente especulativos, e dos paraísos fiscais, além de seu papel na economia e nos mercados financeiros mundiais. A idéia é exigir uma maior transparência nas operações dos fundos hedge e nos negócios feitos em paraísos fiscais, além de exigir uma administração de risco mais prudente por parte dos fundos.
Cancelamento de dívida - Em relação à proposta de cancelamento das dívidas dos países pobres, iniciativa anunciada em 1996, também não houve avanço significativo.
O mais próximo que se chegou de uma avaliação concreta do tema foi a definição do número de países que poderão, eventualmente, ser beneficados: 41. O endividamento total desses 41 países representa cerca de US$ 11 bilhões, ou 0,6% de cada US$ 1 mil no PIB dos países que integram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), conforme estimativa do ministro francês de Finanças, Dominique Strauss-Khan.
O primeiro-ministro alemão, Gerhard Schroeder, atual presidente do Grupo dos Sete, contudo, está determinado a permitir que um número maior de países seja beneficado pelo processo de cancelamento das dívidas ainda durante a sua gestão na presidência do grupo das nações industrializadas.
Ele sugere que os países que pretendem candidatar-se ao benefício, "realizem os ajustes necessários de modo a que o peso de seu endividamente possa ser reduzido de forma rápida e global, ainda que os mecanismos do Clube de Paris sejam insuficientes para a anulação dos empréstimos e créditos comerciais".
Esses casos, segundo Schroeder, seriam analisados como "situações excepcionais". Paralelamente, a França propôs um mecanismo para dividir os custos da redução dessas dívidas entre as nações industrializadas, que considera mais eficiente. Segundo o ministro francês das Finanças, Dominique Strauss-Khan, a fórmula sugerida por seu país impedirá a corrupção e permitirá que as populações desses países pobres sejam realmente beneficiadas pela redução das dívidas.
A proposta de reduzir a dívida dos países pobres foi retomada durante o Fórum Econômico de Davos, na Suíça, pelo vice-presidente dos EUA, Al Gore, Mas nesta reunião do G-7 na Alemanha também a Grã-Bretanha transformou-se no arauto das nações menos favorecidas e reiterou a proposta de vender o ouro do Fundo Monetário Internacional (FMI) para aliviar o endividamento dessas nações pobres.


