Estados Unidos mais reflexivos do que triunfantes De Jim Lobe
Washington, 14 (AE-IPS) - O esperado júbilo pela vitória da Otan na guerra da Iugoslávia se fez notar por sua ausência em Washington, ainda quando os diplomatas da aliança atlântica impunham suas condições no Conselho de Segurança das Nações Unidas e se dispunham a enviar tropas a Kosovo.
Nem mesmo dentro da administração Bill Clinton existe ambiente de triunfalismo, apesar do aparente êxito dos objetivos da Otan depois de 77 dias de guerra contra Belgrado, sem a morte em combate de nenhum soldado da aliança militar.
Essa tímida comemoração não se deve apenas ao fato de que o próprio Clinton tema aparecer como o grande conquistador dos Bálcãs e alimentar o temor da China e da Rússia de que a ação da Otan seja somente o início de uma afirmação de sua hegemonia mundial.
Tampouco seja porque os republicanos, com raras exceções, não tenham apoiado a guerra como o fizeram os democratas na Guerra do Golfo (1991) durante a administração do republicano George Bush. (Foi notória a falta de elogios da maioria dos legisladores republicanos ao esforço bélico, e também o reconhecimento à vitória da Otan).
Não é tampouco porque que o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic tenha sobrevivido no poder, pelo menos por enquanto. (Alguns políticos, inclusive certos republicanos que até há poucas semanas pediam a Clinton para "dar uma chance à paz" com a suspensão dos bombardeios, sugeriram que a sobrevivência política de Milosevic manchou a vitória da Otan, não deixando que ela fosse completa).
E também não é porque várias coisas podem ainda sair erradas em campo, desde a negativa do Exército de Libertação de Kosovo de se desmilitarizar até um possível êxodo de uns 100.000 habitantes sérvios da província que colocará em dúvida o compromisso da Otan de proteger os direitos das minorias étnicas.
A explicação para a ausência de motivos para comemorar, está em todos esses fatores juntos, e também em outros.
A falta de celebração surpreendeu a muitos observadores políticos, em particular aos jornalistas estrangeiros que lembram da euforia que seguiu-se à vitória sobre o Iraque na Guerra do Golfo, que durou apenas seis semanas, frente às quase 11 que a Otan precisou para vencer Milosevic.
"É quase desconcertante. Parece que ninguém se importava muito", comentou um jornalista árabe.
A afirmação do jornalista não está muito longe da realidade, segundo um pesquisa de opinião pública. Apesar de que a guerra contava com o apoio da maioria dos norte-americanos, ela nunca foi uma preocupação maior da população.
"Ao contrário da Guerra do Golfo, o conflito nos Bálcãs nunca tomou conta da consciência nacional", escreveu William Powers, do The National Journal.
"E, à medida que os combates prosseguiam, eram amenizadas as emoções provocadas no começo" apesar da ampla cobertura dos meios de comunicação, observou.
A reação do público pode ser fruto da forma particular como foi levada a guerra, a 5.000 metros de altura, segundo P.J. Crowley, um porta-voz de Clinton.
O perigo que corriam os pilotos da Otan, apesar de sério, era menos visível do que em uma guerra terrestre, e o fato de que nenhum havia sido morto ou capturado - apesar de dois aviões terem sido derrubados - contribuiu para o distanciamento emocional da população.
A forma como foi conduzida a guerra provocou fortes críticas, particularmente entre altos oficiais militares americanos, que consideravam que uma guerra exclusivamente aérea não alcançaria os objetivos propostos.
Igualmente, analistas militares criticaram a estratégia de escalada dos bombardeios, pela qual os ataques se limitavam no começo a objetivos militares e depois se ampliaram a outros mais estratégicos mas politicamente sensíveis, como centrais de energia elétrica.
Outra causa de descontentamento com a guerra foram os chamados "danos colaterais", que causaram a morte de centenas, talvez mais de 1.000 civis sérvios e albaneses de Kosovo, além de ferirem os laços do Ocidente com a Rússia e China, cuja embaixada em Belgrado foi atingida por bombas no mês passado.
"Como resultado do conflito de Kosovo, Rússia e China foram alienadas, ressurgiram o nacionalismo e o sentimento antiamericano nesses países, e os moderados políticos acabaram marginalizados", escreveu Owen Harries, um analista conservador de política exterior.
Além disso, "os dois países estão mais unidos do que nunca estiveram em várias décadas", destacou.
Para grande parte do mundo, somos uma grande força prepotente", comentou o ex-secretário de Estado Lawrence Eagleburger.
Qualquer que seja a razão, a guerra por Kosovo não é considerada uma grande vitória para os Estados Unidos e seus aliados ocidentais, nem sequer como um precedente para futuras ações.
"Está claro que ninguém está disposto a repetir esta experiência no curto prazo", assinalou Ivo Daalder, ex-funcionário do governo americano e integrante do Instituto Brookings, um grupo estrategista em Washington. "Estaremos em Kosovo por muitos, muitos anos, se não décadas", previu.





