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Estado define retorno gradual com modelo híbrido de ensino

Anunciado com mais de dois meses de antecedência pelo Governo do Paraná, o início do ano letivo de 2021 na modalidade híbrida demandará autorização dos pais e cenário epidemiológico favorável

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

A saga pelo retorno das atividades presenciais na rede estadual de ensino do Paraná ganhou um novo horizonte nesta semana com a divulgação da data para o início do ano letivo de 2021, no dia 18 de fevereiro. O governo anunciou que vai implementar um modelo híbrido em que parte dos alunos assistirá às aulas de suas casas enquanto outro grupo estará presente nas salas de aulas, além de uma série de restrições e medidas sanitárias. No entanto, o que ainda não está claro para pais e especialistas em educação é se a nova modalidade será capaz de reduzir a zero os riscos de contaminação ao mesmo tempo em que amenizará os danos causados aos mais jovens pelo isolamento social, tais como depressão e ansiedade, grandes inimigos da aprendizagem ao lado de outros fatores estruturais e sociais.  

 

Ana Beatriz, 14, André, 24 (à frente), Luiz Guilherme,18, e Eliane Gelamo Rua. "Professores foram fundamentais", diz a mãe
Ana Beatriz, 14, André, 24 (à frente), Luiz Guilherme,18, e Eliane Gelamo Rua. "Professores foram fundamentais", diz a mãe | Gustavo Carneiro
 

Os detalhes sobre o planejamento da Seed (Secretaria de Estado da Educação e do Esporte) para o próximo ano letivo foram anunciados pelo governador Ratinho Junior (PSD) em coletiva de imprensa ao lado do secretário da Educação, Renato Feder, e do ministro Milton Ribeiro. No entanto, sem muitas novidades em relação ao que já havia ficado estabelecido em um plano elaborado com base em diretrizes definidas pela Sesa (Secretaria de Estado da Saúde).

  

O retorno às salas de aulas irá condicionar a presença nas escolas a uma autorização dos pais e o acesso mediante a medição da temperatura e o uso de máscaras, além da exigência de distanciamento mínimo de 1,5 metro entre os alunos. Segundo a Seed, o álcool em gel será disponibilizado e a capacidade das salas de aula será reduzida em 50%. “Pensamos em salas de aulas com oito a dez alunos no máximo”, informou Feder.  


Mesmo assim, a dona de casa Eliane Gelamo Rua, 56, conta que ainda vê com receio a ideia de autorizar a ida dos filhos Ana Beatriz 14, Luiz Guilherme, 18, e André, 24, em atividades presenciais. O trio se divide entre o final do ensino fundamental e médio do Colégio Estadual Vicente Rijo e a educação especial na Apae (Associação de Pais e Amigos do Excepcionais), o que faz a mãe compreender cada fase e realidade. Ao mesmo tempo, a dona de casa confessa que o sentimento divide espaço com uma ideia que carrega há muitos anos, a crença que “nada substitui o contato entre professores e alunos na sala de aula”, avaliou.  


Procurada, a entidade que representa mais de 100 mil professores, a APP-Sindicato (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná), disse que vai solicitar a opinião de infectologistas e especialistas sobre o cenário epidemiológico mais próximo do retorno e decidir o seu posicionamento em assembleia. A reunião da categoria será no dia 6 de fevereiro, informou o presidente Hermes Leão.   


Já a Campanha Nacional pelo Direito à Educação se posicionou em nota de forma contrária ao retorno de aulas presenciais enquanto 100% das escolas não possuírem infraestrutura de saneamento, banheiros e água potável em boas condições. 


No Paraná, alunos que não desejarem participar do novo sistema poderão solicitar os materiais impressos, caso de 5% dos matriculados ao longo de 2020. Ainda conforme o governo do Estado, quase R$ 6 milhões foram investidos na compra de equipamentos de prevenção destinados às duas mil escolas estaduais.  


VERÃO TRAZ RISCO DE EXPLOSÃO DE CASOS 


Embora a Seed tenha afirmado que profissionais do grupo de risco estão liberados das atividades presenciais, o aumento da exposição ao risco de contaminação por parte de outros trabalhadores envolvidos na dinâmica educacional não está descartado. Além disso, há uma grande preocupação com uma explosão no número de novos casos ao longo do verão. Passadas as festas de final de ano, quando já é esperado que milhares de pessoas deverão relaxar nas medidas restritivas em viagens e festas de família, a segunda quinzena de janeiro e a primeira de fevereiro deverão servir como “termômetro” para a ampla maioria dos pais do estado do Paraná.     


O alerta é do conselheiro titular na Câmara de Educação Infantil e Ensino Fundamental do Conselho Estadual de Educação do Paraná, Carlos Eduardo Sanches. Para ele, que já ocupou as presidências da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) e do Conselho do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), é preciso reconhecer e tratar com respeito tanto a importância do retorno às salas de aula no fator aprendizagem, quanto o anseio da sociedade em ver seus jovens em contato novamente. No entanto, enquanto avalia que o estado acerta em oferecer uma alternativa, disse acreditar que a definição de um posicionamento enquanto não se tem domínio sobre as variáveis que poderão impactar em um suposto crescimento no número de casos é prematura.  


“Há duas semanas tínhamos um cenário em que o pessoal da área da saúde, especialmente pediatria, demonstrava por meio de estudos a importância do retorno às aulas. Mas ontem (17/12) um estudo em São Paulo demonstrou que em uma semana cresceu em 75% o número de internações de crianças com até dez anos”, ponderou. 

 

Por conta desta incerteza, Sanches cobra que alternativas ao modelo também sejam apresentadas para se evitar “improvisos”, além de uma maior interação entre servidores do estado e dos municípios. “Os prefeitos que chegam ao cargo neste momento ou retornam, é bem provável que também vão providenciar uma operação da equipe. Então defendemos que exista um permanente regime de colaboração, uma sincronia de calendários e um perfeito entendimento porque temos professores com vínculos no estado e no município simultaneamente”, lembrou.

   

Enquanto o governador Ratinho Junior vem afirmando que tanto a segurança de alunos e professores quando a qualidade do ensino estão garantidos, pais como a dona de casa Elaine ainda não estão convencidos de que as aulas retornarão em fevereiro. Questionada pela reportagem, a Seed confirmou que havendo piora da pandemia, o planejamento poderá ser adaptado. 


"PRECISAMOS ASSEGURAR DIREITO À EDUCAÇÃO"


Caso tenham início em fevereiro, as aulas presenciais serão transmitidas pela já utilizada plataforma Google Meet através de notebooks instalados nas salas. Em seguida, a promessa é de que um novo sistema será entregue. Segundo a Seed, o investimento será de R$ 70 milhões na implantação de um sistema que permitirá maior interação entre professores e alunos. "Haverá sincronia total entre quem está nas salas de aula e quem está em casa", disse Feder.  

Contudo, docentes consultados pela reportagem lembram que o conceito de tempo não pode ser equiparado entre quem está na sala de aula e quem está em casa e que muitos pesquisadores têm se dedicado a estudar qual é o período ideal indicado para se permanecer estudando em frente ao computador. 

Questionada quais serão as diferenças entre o que foi anunciado para o que ano que vem e o que já foi praticado em 2020 do ponto de vista pedagógico, a Seed disse que o modelo deve ser visto como um processo "contínuo de ensino, aliando a relação interpessoal do aluno com seus colegas e professores, evitando prejuízos sociais".  

O questionamento surge com a necessidade de reflexão sobre o conceito de ensino híbrido e as novas dinâmicas de ensino trazidas com ele, tais como a rotação por estações - em que os alunos são divididos em grupos e realizam atividades diferentes, porém complementares - e a ideia de sala de aula invertida, quando as aulas são gravadas e o momento entre alunos e professores é mais focado em tirar dúvidas e avançar com o conteúdo. Este conceito foi criado por dois professores de Física nos Estados Unidos e já vem sendo praticado no ensino superior no Brasil há pelo menos três anos.  

Para Carlos Eduardo Sanches, a iniciativa é boa, porém muitos desafios ainda precisam ser vencidos para alcançar um sistema híbrido que garanta o direito à educação. "Eu vejo um esforço danado entre professores que dobraram sua carga de trabalho durante este momento. Contudo, é algo que não preenche adequadamente a oferta de educação como deveria ser. Eu acho que o recurso híbrido é uma importante estratégia, mas precisamos assegurar o direito com formação continuada, recursos tecnológicos e pedagógicos", concluiu. 

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